Levantamento do Datafolha mostra que creches e pré-escolas concentram a maioria dos episódios de discriminação racial relatados por cuidadores
O racismo faz parte da realidade de crianças brasileiras ainda nos primeiros anos de vida. É o que revela a pesquisa Panorama da Primeira Infância – O Impacto do Racismo, realizada pelo Datafolha a pedido da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal. Segundo o levantamento, 16% dos responsáveis por crianças de 0 a 6 anos afirmam que elas já sofreram discriminação racial.
Os episódios aparecem com maior frequência conforme a idade aumenta. Entre os responsáveis por crianças de até 3 anos, 10% relatam que elas já passaram por situações de racismo. O percentual sobe para 21% entre crianças de 4 a 6 anos. Uma das possíveis explicações é que, com o desenvolvimento da linguagem e da percepção social, as crianças mais velhas passam a identificar e verbalizar situações de discriminação com maior facilidade.
A pesquisa também aponta diferenças relacionadas à raça dos responsáveis. Entre cuidadores pretos e pardos, 19% afirmam que as crianças já sofreram discriminação racial, enquanto o índice é de 10% entre responsáveis brancos. O levantamento ainda indica uma maior prevalência dos relatos entre famílias de menor renda.

Escola aparece como principal cenário
Um dos dados que mais chamam atenção é o papel das instituições de educação infantil nos relatos. Creches e pré-escolas foram mencionadas por 54% dos cuidadores como locais onde as crianças vivenciaram situações de racismo. O percentual chega a 61% quando considerados especificamente os casos relatados na pré-escola e a 38% nas creches.
Outros espaços também aparecem entre os locais em que a discriminação foi identificada: 42% dos responsáveis mencionaram espaços públicos, como ruas, praças e parquinhos; 20% citaram o bairro, comunidade, condomínio ou vizinhança; e 16% relataram situações dentro da própria família. Shopping centers, clubes e estabelecimentos comerciais foram citados por 14%.
Para a CEO da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, Mariana Luz, os dados chamam atenção porque a escola deveria funcionar como um espaço de proteção e desenvolvimento. O combate ao racismo, segundo ela, precisa começar desde os primeiros momentos da vida.
Onde denunciar casos de racismo
Casos de racismo contra crianças devem ser denunciados e não tratados como “brincadeira” ou conflito comum entre alunos. A família pode procurar a direção da escola e registrar formalmente o episódio, além de buscar a rede de proteção da infância. Conselho Tutelar, Ministério Público, Defensoria Pública e delegacias de polícia também podem receber denúncias.
Em situações de racismo e injúria racial, a ocorrência pode ser registrada em uma delegacia, inclusive por meio das plataformas de registro on-line disponíveis em alguns estados. O Disque 100, serviço do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, também recebe denúncias de violações de direitos humanos, incluindo casos envolvendo crianças e adolescentes. É importante reunir, sempre que possível, informações sobre o episódio, como data, local, envolvidos, testemunhas e eventuais mensagens, imagens ou outros registros que possam ajudar na apuração.
A denúncia é um instrumento importante para interromper a violência e responsabilizar os envolvidos, além de contribuir para que escolas e instituições adotem medidas de prevenção e enfrentamento ao racismo.
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