Adolescente de 17 anos foi baleado durante ação policial na Caminhada da Diversidade, no bairro da Engomadeira, em Salvador. Um ano depois, investigação ainda aguarda perícia e materiais da Polícia Militar e ninguém foi responsabilizado por sua morte.
Lídia Souza | Redação Odara
No dia 6 de outubro completa-se um ano da morte de Gabriel Silva, de 17 anos, baleado durante a 15ª Caminhada da Diversidade, no bairro da Engomadeira, em Salvador. Passado um ano, ninguém foi responsabilizado por sua morte e sua família segue cobrando justiça.
Na noite de 5 de outubro de 2025, policiais militares da 23ª Companhia Independente de Polícia Militar realizavam o patrulhamento do evento quando, segundo a versão apresentada pela corporação, receberam informações sobre homens armados em uma rua próxima. A PM afirma que os agentes foram recebidos a tiros e reagiram. Durante a ação, Gabriel foi baleado. Socorrido por familiares, ele morreu na manhã seguinte.
Desde então, a família tem se mobilizado para que a morte do adolescente não permaneça impune. Um ano depois, o inquérito, presidido pelo delegado Thiago Lustosa, ainda aguarda provas fundamentais para avançar na identificação e responsabilização de quem matou Gabriel. Entre elas está a microcomparação balística do projétil retirado do corpo do adolescente, além das imagens das câmeras corporais utilizadas por parte dos policiais e dos registros de radiocomunicação da operação, que devem ser enviados pela Polícia Militar.
Os dados de GPS das viaturas já foram obtidos. Mais de 14 policiais foram ouvidos, assim como pelo menos sete testemunhas apresentadas pela família. Após a conclusão dessas diligências, o relatório deverá ser encaminhado ao Ministério Público, responsável por avaliar as medidas cabíveis para eventual responsabilização criminal.
A morte de Gabriel acontece em um cenário de alta letalidade policial que atinge principalmente a população negra. Segundo o 20º Anuário Brasileiro de Segurança Pública, 6.602 pessoas foram mortas em intervenções policiais no Brasil em 2025, um aumento de 5,4% em relação ao ano anterior. Pessoas negras foram mortas pela polícia a uma taxa 3,5 vezes maior que pessoas brancas.
Na Bahia, a situação é ainda mais grave: o estado registrou a segunda maior taxa relativa de letalidade policial do país, atrás apenas do Amapá. Os dados dimensionam uma política de segurança pública que segue produzindo mortes nos territórios negros e periféricos, enquanto famílias como a de Gabriel continuam lutando para que essas mortes não permaneçam impunes.
E, quando essas mortes não são seguidas por investigações céleres e pela responsabilização dos envolvidos, a violência se prolonga. Ela continua na impunidade, na morosidade das instituições e na obrigação imposta às famílias de transformar o luto em luta para que a morte de seus filhos não seja esquecida.
Um ano depois, a família de Gabriel ainda percorre esse caminho em busca de justiça. Gabriel tinha 17 anos, uma vida inteira pela frente e o direito de voltar para casa. Sua morte não pode ser reduzida a mais um número nas estatísticas da letalidade policial. É preciso romper com a impunidade em casos de violência do Estado e garantir que quem tirou sua vida seja responsabilizado.
