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Sophia Cotrim apresenta em Genebra pesquisa sobre ‘Ainda Estou Aqui’, memória da ditadura e direitos humanos

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A estudante de Direito Sophia Maria Cotrim Almeida, de 19 anos, apresentou em Genebra, na Suíça, uma pesquisa sobre a internacionalização da memória da ditadura brasileira por meio do filme Ainda Estou Aqui, durante experiência científica e diplomática realizada entre 10 e 19/10/2026. Nesta terça-feira (27/10/2026), a análise do artigo publicado mostra que o estudo vai além da abordagem cinematográfica: investiga como a circulação internacional da obra de Walter Salles pode ter alterado a visibilidade e o enquadramento dado por veículos ocidentais às violações de direitos humanos, ao desaparecimento de Rubens Paiva, à trajetória de Eunice Paiva e ao debate sobre justiça de transição.

Pesquisa parte de ‘Ainda Estou Aqui’ para discutir memória histórica

O artigo tem como título “Brazilian Cinema and the International Dissemination of Historical Memory: Eunice Paiva’s Story in I’m Still Here and the Human Rights Violations of the Brazilian Military Dictatorship”.

O ponto de partida é o filme Ainda Estou Aqui, dirigido por Walter Salles e baseado no livro autobiográfico de Marcelo Rubens Paiva. A narrativa acompanha a família Paiva e, especialmente, a trajetória de Eunice Paiva após o desaparecimento forçado de seu marido, o ex-deputado Rubens Paiva, durante a ditadura brasileira.

Segundo Sophia, a pesquisa busca compreender de que modo o cinema pode contribuir para a construção da memória coletiva e manter presentes as violações de direitos humanos ocorridas durante o período autoritário. Para a estudante, lembrar esse passado está relacionado ao fortalecimento da democracia e à prevenção da repetição de violações.

Problema central é medir mudança na cobertura internacional

O trabalho formula uma pergunta específica: em que medida a circulação internacional e o reconhecimento de Ainda Estou Aqui teriam alterado a cobertura de grandes veículos ocidentais sobre a ditadura brasileira e suas violações de direitos humanos.

A hipótese considera duas dimensões. A primeira é quantitativa: verificar se aumentou o volume de matérias relacionadas ao período ditatorial. A segunda é qualitativa: identificar se houve mudança no enquadramento, com maior presença de temas como desaparecimento forçado, vítimas, responsabilidade do Estado e justiça de transição.

O artigo procura preencher uma lacuna identificada pela autora: embora exista produção acadêmica sobre a estética do filme, trauma, adaptação literária e recepção política doméstica, haveria menos estudos comparativos sobre como uma obra cinematográfica de circulação global interfere no modo como meios estrangeiros reenquadram um período autoritário.

Método utiliza análise de conteúdo de Laurence Bardin

Sophia define o trabalho como uma investigação qualitativa, exploratória e descritiva, baseada em análise bibliográfica e documental. O corpus inclui reportagens, artigos de opinião, editoriais, críticas de cinema e entrevistas de veículos com alcance internacional.

Entre os meios selecionados estão The New York Times, The Washington Post, The Guardian, BBC, Le Monde e El País. O estudo divide a análise em períodos anteriores e posteriores à estreia internacional, à campanha global e ao reconhecimento do filme em premiações internacionais.

A metodologia empregada é a Análise de Conteúdo de Laurence Bardin, com classificação temática das publicações. O trabalho observa frequência de determinados termos, referências históricas e mudanças de enquadramento, incluindo a presença de expressões relacionadas a “desaparecimento forçado”, “terrorismo de Estado”, “tortura” e “crimes contra a humanidade”.

Eunice e Rubens Paiva ocupam o centro da análise

A pesquisa trata a história da família Paiva como ponto de encontro entre memória individual e memória coletiva. Rubens Paiva desapareceu em 1971, após ser detido por agentes ligados ao aparato repressivo da ditadura. Eunice também foi detida e interrogada e, durante cerca de duas décadas, buscou reconhecimento oficial sobre o destino do marido.

Na interpretação apresentada no artigo, a trajetória de Eunice mostra como uma experiência inicialmente familiar pode transformar-se em questão pública ligada ao direito à verdade, à responsabilização estatal e à preservação da memória histórica.

O texto também relaciona o caso Paiva ao conceito de desaparecimento forçado, ressaltando que a ausência de informações oficiais e de um corpo prolonga os efeitos da violação sobre familiares e sociedade.

Ditadura, redemocratização e justiça de transição

Para contextualizar o objeto de estudo, Sophia retoma a ditadura brasileira de 1964 a 1985, período marcado por detenções arbitrárias, tortura, desaparecimentos forçados, censura e outras violações documentadas posteriormente por instituições brasileiras e internacionais.

O artigo destaca o AI-5, de 1968, a Lei da Anistia de 1979, a Constituição Federal de 1988 e o trabalho da Comissão Nacional da Verdade, que publicou relatório final em 2014 e registrou 434 mortos e desaparecidos políticos.

Esse percurso é conectado ao conceito de justiça de transição, que envolve mecanismos destinados a esclarecer violações, preservar a memória, reconhecer vítimas, promover reparações, responsabilização e garantias de não repetição.

A pesquisa também utiliza o caso do jornalista Vladimir Herzog, morto em 25/10/1975 nas dependências do DOI-CODI em São Paulo, para discutir a disputa entre versões oficiais produzidas pela repressão e a posterior reconstrução documental dos fatos. O artigo lembra ainda a responsabilização internacional do Estado brasileiro no sistema interamericano pela falta de investigação e punição adequadas.

Oscar amplia circulação internacional da memória

Um dos eixos do estudo é o que Sophia denomina “efeito Oscar”. Ainda Estou Aqui venceu em 02/03/2025 o Oscar de Melhor Filme Internacional, tornando-se, segundo o artigo, a primeira produção brasileira vencedora de uma estatueta da Academia.

A interpretação da autora é cuidadosa: o prêmio não teria iniciado a internacionalização da memória retratada no filme, mas amplificado um processo que já estava em andamento, por meio de festivais, distribuição internacional e cobertura jornalística.

O estudo sustenta que a circulação do longa abriu novas possibilidades para que públicos estrangeiros associassem a ditadura brasileira não apenas a uma conjuntura política da Guerra Fria, mas também às experiências de vítimas, desaparecimentos, tortura, responsabilização estatal e direito à memória.

Resultados apontam mudança, mas pesquisa reconhece limitações

Nas conclusões, o artigo sugere que Ainda Estou Aqui contribuiu para transformar a memória da ditadura, antes tratada principalmente como tema histórico e nacional, em assunto com renovada visibilidade internacional e relevância política contemporânea.

A formulação, contudo, não deve ser interpretada como demonstração definitiva de causalidade. A própria autora registra duas limitações centrais: o corpus está concentrado em grandes veículos ocidentais e o período temporal estudado ainda é relativamente curto.

Por isso, o artigo afirma que pesquisas futuras deverão incluir maior diversidade de países e sistemas de mídia e períodos mais longos para verificar se o novo enquadramento permanecerá ou se correspondeu principalmente ao ciclo de lançamento e premiações da obra.

Essa ressalva metodológica é essencial. O trabalho identifica tendências na circulação da memória e na cobertura jornalística, mas preserva aberta a questão sobre a persistência dessas mudanças no longo prazo.

Genebra transforma pesquisa em experiência internacional

A apresentação ocorreu no contexto do Geneva Track 2026, iniciativa do Instituto Diplomun que reúne formação em geopolítica, relações internacionais, pesquisa acadêmica e programação presencial na Suíça. O programa prevê desenvolvimento de artigos autorais e atividades junto a instituições do ecossistema diplomático de Genebra.

Sophia foi a única representante da Bahia entre 20 pesquisas selecionadas nacionalmente. Segundo as informações divulgadas sobre a experiência, 14 artigos científicos chegaram à etapa de apresentação, incluindo trabalhos de participantes que não compareceram presencialmente. O volume inaugural do Diplomun Journal of Global Affairs também reúne 14 artigos.

A pesquisa de Sophia aparece no sumário oficial do periódico, que informa que o volume reúne trabalhos produzidos por participantes do Geneva Track 2026 e estabelece que interpretações e conclusões pertencem aos próprios autores.

Geneva School of Diplomacy e Palácio das Nações

A programação incluiu experiência acadêmica na Geneva School of Diplomacy, instituição privada suíça especializada em diplomacia, relações internacionais, assuntos globais, governança e áreas correlatas. Fundada em 2003, a escola mantém orientação voltada à combinação entre formação acadêmica e atuação profissional em assuntos internacionais.

O Geneva Track informa ainda atividades no Palais des Nations, sede do Escritório das Nações Unidas em Genebra. O complexo foi construído originalmente para a Liga das Nações e posteriormente transferido à ONU. Hoje constitui um dos maiores centros mundiais de conferências diplomáticas.

Durante a programação, Sophia acompanhou atividades relacionadas à ONU e teve contato com representantes de organismos internacionais. Entre os encontros relatados está uma conversa com Tatiana Valovaya, diretora-geral da ONU Genebra, além de contatos com diplomatas e profissionais ligados ao PNUD e à OMC.

A própria ONU informa que Valovaya é a primeira mulher a dirigir o Escritório das Nações Unidas em Genebra. O órgão ocupa posição central no sistema multilateral e mantém relações com missões permanentes, agências internacionais, organizações não governamentais e instituições acadêmicas.

Pesquisa coloca memória histórica em perspectiva contemporânea

O artigo conecta o debate sobre a ditadura à crise democrática contemporânea. Sophia menciona os ataques de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, como exemplo da permanência de disputas sobre autoritarismo, memória política e defesa das instituições democráticas.

Na argumentação desenvolvida pela autora, produtos culturais podem reativar a memória histórica quando episódios do passado deixam de ocupar apenas arquivos, livros e debates especializados e passam novamente a integrar a esfera pública.

A conclusão do artigo sustenta que cinema e outras produções culturais podem contribuir para educação em direitos humanos e discussões públicas sobre violência estatal, instituições democráticas e preservação de documentos históricos. Ao mesmo tempo, a própria pesquisa condiciona essa interpretação às limitações de amostra e período já identificadas.

Linha do tempo dos principais acontecimentos

  • 1964 a 1985 — Vigora no Brasil a ditadura civil-militar, período histórico que constitui o pano de fundo da pesquisa de Sophia.
  • 1968 — Edição do AI-5 aprofunda a repressão política e a restrição de garantias e liberdades.
  • 1971 — Rubens Paiva é detido e desaparece; Eunice Paiva inicia longa busca por reconhecimento oficial sobre o destino do marido.
  • 25/10/1975 — Morre o jornalista Vladimir Herzog nas dependências do DOI-CODI em São Paulo; o caso torna-se referência na discussão sobre repressão e responsabilidade estatal.
  • 1979 — É promulgada a Lei da Anistia; no mesmo ano, Eunice Paiva conclui sua formação em Direito, segundo o estudo.
  • 1988 — A Constituição estabelece nova ordem democrática baseada em direitos fundamentais e garantias constitucionais.
  • 2014 — A Comissão Nacional da Verdade publica relatório final documentando mortos, desaparecidos e estruturas estatais envolvidas em graves violações.
  • 2024 — Ainda Estou Aqui, de Walter Salles, alcança circulação internacional ao retratar a história da família Paiva.
  • 02/03/2025 — O filme vence o Oscar de Melhor Filme Internacional, ampliando sua visibilidade global.
  • 2026 — Sophia desenvolve e publica pesquisa sobre cinema, memória histórica, direitos humanos e cobertura internacional.
  • 10 a 19/10/2026 — A estudante participa de programação científica e diplomática em Genebra, na Suíça, e apresenta sua pesquisa no contexto internacional.
A estudante feirense Sophia Cotrim, de 19 anos, apresentou em Genebra pesquisa sobre a circulação internacional da memória da ditadura brasileira a partir de Ainda Estou Aqui. O artigo utiliza análise de conteúdo da cobertura de grandes veículos ocidentais e examina temas como Eunice e Rubens Paiva, desaparecimento forçado, direitos humanos e justiça de transição. Publicado em 2026, o estudo também reconhece limites metodológicos e propõe novas investigações.
Sophia Cotrim, estudante de Direito de Feira de Santana, apresenta em Genebra pesquisa que analisa como Ainda Estou Aqui ampliou o debate internacional sobre ditadura, memória histórica, direitos humanos e democracia.

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