Diagnosticada com transtorno do espectro autista (TEA) aos 48 anos, a jornalista Giza TEA transformou uma descoberta que inicialmente provocou luto e trauma em uma nova forma de compreender a própria história e em uma bandeira para sua entrada na política. Candidata a deputada distrital pelo Mobiliza, ela afirmou ao GPS|Brasília que escolheu levou o autismo para o próprio nome de urna com a intenção de transmitir uma mensagem que considera central: “Um autista pode ser o que ele quiser. Inclusive político”. Na entrevista, Giza conta como as experiências de infância, o período em que viveu em situação de rua e as dificuldades para estabelecer relações e se adaptar a ambientes ajudaram a explicar comportamentos que, durante décadas, foram vistos apenas como excentricidades.
Giza, qual é o significado de Giza TEA?
Giza Autista.
Quantos anos você teve esse diagnóstico de autismo?
Ns meus 50 anos, há dois anos.
Foi impactante? Como é que você recebeu o diagnóstico? Você tinha algum indicativo de estar no espectro autista?
Eu fui criada em orfanato, fui moradora de rua. Então, fui criada como uma doidinha. Fui alfabetizada aos 10 anos de idade. Sempre tive muita dificuldade de manter as amizades. E eu sempre olhava para as pessoas e eu pensava: ‘Sério que ela pensa assim? Sério que ela age assim?’ Porque, na minha mente, penso completamente diferente das outras pessoas e ajo completamente diferente. Então, eu não conseguia me encaixar. Eu não conseguia me achar nesse mundo.
E o que aconteceu depois do diagnóstico de autismo? Como é que você começou a enxergar o mundo?
Eu fiquei em luto. Foi um trauma. E aí, até a minha psiquiatra riu e falou: ‘você preferia ser doida do que ser autista?’ Brincando, para me distrair. Porque, na verdade, a ideia de uma pessoa autista que a gente tem é outra. E é só a pessoa nível 3 de suporte. Eu tenho autismo nível 1. Tem gente que fala ‘como uma jornalista, uma pessoa que trabalha na comunicação é autista’. Sim, porque não é só isso. É um grupo de convergências. Então, primeiro foi o luto, mas depois, para mim, foi libertador. Foi aí que eu falei assim: ‘achei minha tribo’. E hoje, converso com mulheres, com pessoas divergentes. Eu penso desse jeito, então, agora eu sei por que eu sou assim. Para mim, foi libertador.
Quando você coloca como nome de urna Giza TEA você põe o autismo no centro da sua identidade política. E qual é a mensagem que você quer transmitir para o eleitor, depois da escolha de seu nome?
Que um autista pode ser o que ele quiser. Inclusive político. Que é o autismo que eu quero representar. Não que eu vá legislar só para os autistas, não é isso. Mas, como já me questionaram: ‘uma autista na Câmara Legislativa? você vai suportar os embates, a pressão?’ Eu falei sim. Um autista pode compor qualquer posição.
É estranho que as pessoas ainda pensem, em pleno século XXI, que um autista não pode isso ou não pode aquilo, como ainda tem gente que pensa que a mulher não pode isso, não pode aquilo. Agora, mulher negra e autista, você está numa faixa que pouca gente na população. O que essas três faixas, mulher, negra e autista, podem esperar de você?
Com certeza, como mulher, eu vou defender as mulheres. Como negra, também vou defender a inclusão, e como autista, e isso para mim envolve todos os neurodivergentes, pode ter certeza de que eu vou pegar firme. Eu não vou desistir. A minha vida nunca foi fácil. Nunca foi fácil para mim, mas os desafios, para mim, parece que gosto de superá-los. Fala que é desafiador para mim assim, que você não vai. Aí eu vou…
Você é uma jornalista que já trabalhou em grandes redações aqui no Distrito Federal, citando aqui o Correio Braziliense, o extinto Jornal da Comunidade, o Jornal de Brasília… e depois a causa da inclusão entra na sua vida. Em que momento você percebeu que era necessário estar na política para ajudar as ferramentas de inclusão na sociedade?
Porque o que os políticos fazem hoje não é o que nós precisamos. Só um neurodivergente sabe sua verdadeira necessidade. Porque nós não precisamos de mais construções. Brasília tem espaços mais do que o suficiente para nos atender. Nós precisamos é que a população seja educada para nos atender e precisamos de ferramentas, de salas preparadas para acalmar o neurodivergente. Eu raramente precisei de uma sala, mas que os espaços sejam adequados. Então, só o neurodivergente sabe o que realmente nós precisamos. Porque as pessoas falam vamos construir um centro de autismo aqui. Gente, nós temos as escolas, nós temos as UPAs, nós temos os postos de saúde, todos os lugares têm espaço para que nós possamos usar. Mas o mais importante é educar a população. Você sabia que eu quase fui presa esses dias?
Por quê?
Porque eu sorri do policial. Ele me parou na blitz, eu estava vindo de uma reunião, estava muito cansada e não liguei o farol. Só que a voz do guarda era tão engraçada, que… a gente às vezes é uma criança, parece que medo do perigo some na hora, entende? E eu pensando: ‘meu Deus, estou tão cansada que eu esqueci de ligar o farol’. Aí, quando ele falou, comecei a rir. Aí ele: ‘qual o seu problema?’ Aí eu falei: ‘não, desculpa’. Mas eu não consegui. Tive uma compulsão de rir. E ele pediu para eu descer do carro e falou: ‘só pode estar drogada, vou fazer o teste de bafômetro’ e não sei mais o quê. E aí nisso veio uma mulher, uma policial. Aí ela falou: ‘você está vendo o colarzinho dela?’ Aí que ele viu. Ele falou: ‘agora é isso, a gente tem que se acostumar com os doidos’.
É um caso típico de preconceito praticado por um agente público do Distrito Federal. Porque não está preparado. E como é que fica a proteção de outras pessoas que são autistas, ou melhor, a proteção de todas as pessoas autistas na sociedade?
Pois é. Uma pessoa dessa não estar preparada para lidar com uma pessoa neurodivergente? Esses dias, um rapaz foi morto pela mesma coisa, porque riu de uma situação. Um jovem foi espancar nele até a morte, por que ele sorriu. A gente, de verdade, precisa educar as pessoas.
Você fala muito nada sobre nós sem nós. E na prática, o que você está dizendo é que as pessoas neurodivergentes e pessoas com deficiências e outras pessoas, mulheres também, precisam participar diretamente das decisões que as envolvem. E o que falta para que esse tipo de preceito, que essa frase representa, seja aplicado aqui no Distrito Federal, na sua opinião?
Primeiramente, a população nos acolher. A Câmara Legislativa está preparada para um neurodivergente? Eu acredito que não. Vou ter espaço? Democraticamente tem que ter. Mas, hoje, não está preparada. Andando por lá percebo que até para cadeirante é difícil alguns lugares. Então, que preparem os espaços, eduquem a população para nos receber. Que nós possamos participar também, ter parte em tudo. Que nós possamos participar da democracia.
Você, então, já identificou problemas centrais. A falta de educação em relação às pessoas autistas, a falta de educação geral, a falta de educação tanto do agente público, como você citou, como do cidadão comum. E a acessibilidade de determinados espaços e o conforto que esses espaços têm que proporcionar a toda a população, os neurodivergentes, as mulheres, enfim, todos que você representa. No que mais a gente precisa evoluir como sociedade para respeitar a diferença, na sua opinião?
Primeiro, a educação vem de berço. As crianças só fazem o que elas aprendem em casa. A gente vê muito bullying ainda, de toda parte. Então, acho que a primeira parte é isso: a educação já vir de casa. Porque quando você aprende, quando você cresce, você não vai esquecer. Você vai aprender a respeitar. Porque nós não somos obrigados a nos adaptar a um ambiente. É o ambiente que tem que se adaptar a nós. Quando eu falo nós, me refiro também a todas as pessoas PCDs. Porque eu sou uma pessoa PCD. Então, a todas as pessoas. Um ambiente que tem que se adaptar. Não a gente ser obrigada. Porque hoje nós somos obrigadas a suportar um ambiente de trabalho, um ambiente escolar, em um transporte público. Porque as pessoas não nos suportam. As pessoas não dão espaço.
E essa falta de suporte da sociedade, 100% é preconceito, né?
É 100% é preconceito. Porque, em relação ao neurodivergente, quando a gente está falando ouve muito ‘ah, mas você não parece que é autista’. A gente chama de capacitismo. As pessoas pensam que um autista é só daquele jeito. Um síndrome de Down, só age daquela maneira. Mas tem N níveis de síndrome de Down. Tem três níveis de autismo. Tem pessoas com cadeirantes que precisam de N necessidades. Uns de mais, outros de menos. O que a gente precisa é isso.
Vamos falar um pouco de saúde pública, né? Sim. O que é preciso melhorar no atendimento da rede pública para diagnóstico, acompanhamento, tratamento, não só de autistas e neurodivergentes, como da população em geral e especialmente os PCDs?
Hoje, precisamos melhorar o quadro. Porque espaço, nós temos. Pessoas capacitadas, não. Então, nós precisamos de pessoas capacitadas para atender a população. E para atender a população em geral. A saúde de Brasília está um caos. Então, os governantes precisam realmente focar na saúde. Esquecer um pouco as construções.
As famílias costumam relatar na questão da saúde que a dificuldade maior é conseguir o diagnóstico para o acompanhamento especializado. Como deputada distrital, você tem alguma proposição para modificar isso, para tentar ajudar todas as pessoas que são neurodivergentes?
Com certeza. Porque hoje, mais de 70% dos laudos vêm da rede particular. Só 20% vêm da rede pública. É muito pouco. Nós temos mais de 43 mil autistas laudados. Na minha família, só tem eu. Mas nós temos quatro. Os outros não têm laudo. Têm outras neurodivergências. Mas um laudo hoje custa muito caro. Eu, como deputada distrital, a primeira coisa a fazer seria isso. Que a população tenha acesso mesmo, que facilite o laudo. As pessoas falam que, hoje, todo mundo é autista, todo mundo compra um laudo. Gente, não é assim. É tão difícil você tirar um laudo. Porque não é só um médico, são quatro médicos para tirar um laudo. Você passa com um psiquiatra, um neuro, um nutricionista e um fonoaudiólogo, porque envolve tudo isso. E se alguém compra, é problema dele. Se é que existe realmente esse mercado, o que não acredito. Mas, depois, para você conseguir algum benefício, não é só o laudo. Você tem que estar fazendo um acompanhamento.
Mais uma ignorância, né?
É. Não é fácil. Porque você tem um laudo, ok. Seus problemas estão resolvidos? Não estão resolvidos. Aí que começa. Porque você vai ver que na rede pública não tem atendimento. Então, a primeira atitude que eu ia tomar é isso. Facilitar esse diagnóstico e o acompanhamento.
Em educação, como é que a gente consegue melhorar a inclusão de alunos que são autistas e PCDs nas nossas escolas no DF, que estão passando por problemas para receber essas crianças? Você acha que é mais equipe multidisciplinar, mais profissional de apoio, mais capacitação de professores, ou isso tudo junto?
Tudo junto. Porque o que eu vejo hoje, acho uma maldade com os professores. De verdade. Acho que os professores estão se superando. E inclusive os alunos, porque atrapalha todo mundo. Um autista dentro de uma sala com nível de suporte 2 e 3, coitado do professor. A professora não está capacitada para aquilo. E falam que vão ter mais equipe de apoio, mas não colocam o suficiente. Prejudica a sala inteira. A minha dentista me compartilhou que, em escola particular, a filha dela e a sala todinha estavam sendo prejudicadas por conta disso. Uma escola particular. E a filha dela, uma criança de 5, 6 anos, relatou: ‘mãe, o fulano só fica chorando na sala e eu não consigo consigo prestar atenção’. As crianças estão relatando a dificuldade. Agora imagina esse professor. E isso na escola particular. Agora imagina em uma escola pública. O quadro tende a ficar mais grave, porque a estrutura, muitas vezes, é menor.
Você teve o diagnóstico do autismo já na idade adulta. E a discussão do autismo, muitas vezes, parece concentrada na infância, no máximo, na adolescência. Mas vamos falar de adulto neurodivergente. Como é que a gente cria políticas para, por exemplo, formação profissional, emprego e autonomia plena de todo esse público que é neurodivergente?
Aí é que está… porque, em relação a essas pessoas, nós só temos acompanhamento até os 18 anos. Depois disso, não tem mais. Tem um programa que acolhe a criança e o adolescente. Depois disso, esse autista, fica em casa com os pais. E os pais não sabem o que fazer. Porque hoje não existe isso de educar para o trabalho. Nos Estados Unidos, existe. Trata um autista quase que de igual para igual. Dá qualidade de ensino para eles, para eles poderem se desenvolver e trabalhar. Aqui no Brasil, não existe. Você simplesmente coloca na mesma salinha, mistura e a gente que tem que se adaptar e tem que se virar. Quem consegue? Eu tenho muita dificuldade de trabalho presencial. Há mais de 15 anos que trabalho em casa. E eu não sabia o porquê. Mas eu sou privilegiada. Agora, e quem não pode? Quem não pode está abandonado. Os autistas, jovens, adultos, idosos, estão abandonados. A família atípica está abandonada. Ela precisa de acolhimento e de cuidado que, hoje, não tem.
O seu caso é um exemplo: há uma dificuldade sobre o diagnóstico das mulheres autistas. Em geral, ele vem muito tarde. O que a gente pode propor de política pública para essas duas interseções que você representa, mulher e autista?
A mulher é um ser fantástico. Ela consegue mascarar. Os homens não. Vocês, homens, são mais óbvios. Nós, não. Então, a dificuldade de descobrir o autismo na mulher é isso, porque há esse mascaramento. Mas se agora, com tudo tão discutido, estão falado, acho que isso já está quase caindo por terra. Entende? Porque o precisava era isso. Porque a gente não vai precisar se mascarar. A gente não vai precisar se esconder. A gente vai poder se mostrar. Eu mesma segurava minhas mãos para não balançar. Porque, às vezes, se eu estou feliz, eu bato palmas para extravasar, gesticulo muito. Mas eu me segurava, botava a mão debaixo das pernas. Ou então, você estava conversando comigo, eu estava, às vezes, me balançando um pouquinho para me regular, porque antes eu não sabia que era isso. Estava balançando, mas segurando as mãos. Por quê? Porque quando era criança, apanhava. Ouvia: ‘para, está parecendo doida, para de balançar’. Eu tive que aprender a me mascarar. Mas, hoje, com tudo tão falado, as mulheres não vão mais precisar disso.
Nas duas últimas respostas, você falou muito da estrutura familiar. E aí, a gente tem o tema das famílias atípicas, que precisam de suporte. O que você acha que a gente podia fazer em termos de política pública para reduzir a sobrecarga física, emocional e financeira enfrentada pelas mães, pais e por pessoas cuidadoras?
As pessoas falam muito da mãe atípica, mas eu defendo a família. Porque a mãe precisa de um suporte, de uma tia, de uma vizinha, de uma avó. Sempre tem alguém ali, porque uma pessoa sozinha realmente não dá conta. É pesado. Então, hoje, o que eu penso é que quem cuida precisa de cuidado. Dá um atendimento também para as famílias. Psicológico, de mercado de trabalho. Hoje dificultam a vida das famílias, porque se a criança recebe um BPC Loas, se o pai trabalha, cancelam. Então, o que acontece? As pessoas têm que ficar em casa só com aquilo ali. Não dá, gente, é pouco. A gente tem que facilitar a vida das famílias, não dificultar. Agora, na campanha, tinha pessoas que queriam trabalhar, mas como recebem Bolsa Família, se fossem contratados, iam cancelar. Eu acho isso um absurdo. E outra: estão construindo centros de autismo? Coloquem as pessoas PCDs e essas mães atípicas para trabalhar. Enquanto os filhos estão lá, sendo cuidados, elas estão trabalhando,
O teu discurso reúne uma gama de públicos interessantes. Além dos autistas, pessoas com deficiência, com síndrome de Down, cegos, surdos, cadeirantes e a família atípica. Essa comunidade é unida por um ponto e existem diferenças entre as suas demandas. Como é que você aborda esses dois aspectos?
Nos PCDs, existem vários. O que a gente precisa é respeitar a diferença. Se você conversa com cada representante para saber a necessidade, consegue construir uma política pública para cada um. É conversar, conhecer as necessidades reais de cada pessoa, de cada indivíduo, de cada classe.
O que você acha que vai mudar na realidade da inclusão se você for eleita?
Outros vão olhar para mim e falar: ‘se ela chegou, eu também posso’. Ela chegou… uma menina de rua, moradora de rua, neurodivergente, mulher, negra… ela chegou, eu também posso. É o meu desejo.
Emendas parlamentares é um tema que está sempre na mesa, porque elas têm um lado muito bom e um lado que, às vezes, não é bom pelo desvio, pelo mau uso. Você tem afirmado que as suas emendas parlamentares vão estar relacionadas com a inclusão. Como é que iria funcionar essa sua destinação? Quais seriam os critérios e instituições? Você já tem uma ideia sobre isso?
Eu sempre gosto de estudar, de ouvir a população de verdade. E eu estou chegando agora. É a primeira vez que eu estou vindo. E estou fazendo visitas em muitas casas. Ouvindo muita coisa. Isso ainda está em ebulição dentro de mim, porque olho o que a gente tem hoje e falo que não é nada disso. Não é nada do que tem hoje. A população precisa de muito mais.
Outra função precípua de uma deputada é a fiscalização. Aí a gente chega à conclusão de que você vai ficar de olho nas políticas públicas voltadas às pessoas neurodivergentes, com deficiência, mulheres…
Não só, porque acho que um legislador, como nós estávamos conversando agora há pouco, não pode defender só suas pautas. Essa é a minha pauta. Vou defender com unhas e dentes as minhas pautas. Mas acho que um legislador não pode olhar só para o seu umbigo. Tem toda uma cidade para cuidar. Então, a gente tem que ver a necessidade em todo.
Orçamento é um ponto crítico. Ainda mais numa cidade que hoje tem um déficit grande e o caso do BRB. Inclusão exige recursos, ainda mais com o de atraso que a gente está no atendimento à inclusão. Onde é que podiam sair esses recursos? O que você acha que o governo poderia destinar?
Olha, Brasília já está tão sacrificada que é até difícil falar. Tira daqui, tira dali, tira dali, porque esses últimos acontecimentos quebraram as pernas de Brasília. Então, isso aí vai ser bem desafiador.
Você está na aliança que está próxima da governadora Celina Leão, que é candidata à reeleição. E a última legislatura trouxe deputados que eram meros aprovadores de mensagens enviadas para o Executivo. Você, como é que você pretende se relacionar com o próximo governador, independente de quem estiver no Buriti?
Com respeito, mas não vou baixar a cabeça. Eu não vou facilitar, porque estou a favor da população. Então, vou fazer e vou brigar pelos direitos da população. Porque um deputado distrital está representando o povo. Eu sou representante do povo. Não vou poder ficar passando a mão na cabeça.
Vamos continuar na pauta da sua atuação parlamentar. A gente já esmiuçou vários pontos, mas tem aquele achismo de que o deputado é um produtor de projetos de lei. Essa é uma das funções, mas não é a principal. Mas você tem algum projeto que quer apresentar na Câmara Legislativa, caso você seja eleita?
O pioneiro projeto seria o da inclusão de verdade. Criar cartilhas de educação para educar a população, principalmente quem trabalha nos órgãos públicos. O segundo é o de facilitar o diagnóstico e acompanhamento, além do mercado de trabalho. Estou chegando agora, mas eu conversando com empresários e com as pessoas PCDs sobre o que realmente precisa para acontecer essa inclusão. Estou em fase de estudo, mas com foco, principalmente, no mercado de trabalho para o neurodivergente.
A gente sente muita falta dessa questão do estudo entre os candidatos. Há muitos candidatos que não sabem nem o que podem fazer. Nessa questão do do preparo, esse foco de uma pessoa autista é muito bom para a sociedade, porque o autista é uma pessoa focada e consegue bons resultados por conta disso.
Eu não sou superdotada. Mas tenho hiperfoco. Então, quando estou focada em fazer uma coisa, se você me der uma tarefa, meu irmão, você pode saber que vai ser a melhor. Eu vou executar. Posso não saber, mas vou me entregar ao quadrado. Mas eu vou virar a noite e vou te entregar o melhor projeto.
Além da posição de defesa das pessoas com deficiência, transtorno do espectro autista e tudo mais, você tem proposta para outras áreas como saúde, educação, mobilidade, segurança, desenvolvimento econômico? Esses itens vão permear toda a sua atuação parlamentar?
Eu vim pela pauta dos neurodivergentes, por ver a necessidade, por estar vivendo. Por ver tudo que passei, venho por isso. Mas não só para isso. Sempre me perguntam: ‘mas você vai legislar só para os autistas?’ Não, gente. Eu vou estudar, ver o que a cidade está precisando, o que a saúde está precisando, o que você está precisando. Você não pode inventar uma coisa do nada.
Brasília está longe da inclusão, mas o que você gostaria de ver adiantado nos próximos quatro anos, quando você for disputar a reeleição?
Eu quero que Brasília seja a capital da inclusão, que seja referência de inclusão. Ainda faltam coisas que nós precisamos de verdade, e é isso que vou levar para a governadora Celina Leão, mas ela tem feito. Eu acho que a nossa dobradinha vai dar muito bom para Brasília.
Vamos falar um pouco para quem não conhece a causa: que argumento você usaria para convencer uma pessoa que não tem nenhum familiar autista, ou com deficiência, ou com neurodivergência, de que a pauta da inclusão também diz respeito a ela?
Você falou há pouco da dificuldade das salas de aula, você deu vários exemplos, mas como é que a gente fala para uma pessoa que não tem conhecimento? Hoje nós não podemos olhar só para o nosso umbigo. Hoje você não tem uma pessoa neurodivergente na sua família, mas amanhã você pode ter netos neurodivergentes, e você está preparado? Você acha que a cidade está preparada para acolher seu neto? De forma alguma, de jeito nenhum. É sobre isso. É cuidar hoje para os que vêm amanhã não sofrerem os que estão aqui estão sofrendo.
Se você conquistar a tão sonhada vaga na Câmara Legislativa, qual a principal mudança que você gostaria de conseguir para as pessoas hoje que se sentem completamente invisíveis diante do poder público?
Que todo mundo tenha o direito de tirar um laudo. Acho um absurdo uma pessoa ficar dois anos em uma fila esperando por um laudo, depois que não sabe nem o que vai fazer com ele. A primeira coisa é dar acessibilidade de verdade para que essas pessoas tenham os direitos preservados, que façam valer os direitos delas, que elas nem sabem. Eu converso com pessoas que nem sabem os direitos que elas têm. Eu não gostaria de ser, eu sou, tudo bem, mas eu não gostaria. Só eu sei o peso que é. Posso parecer normal, sou normal, mas eu tenho uma neurodivergência e é pesada.
Mensagem final para o eleitor?
Eu defendo as mulheres negras, as mulheres autistas, neurodivergentes. Sou focada em tudo o que eu faço. Eu não vim da política, não nasci na política. Estou sendo obrigada a me incluir na política para defender tudo o que acredito, com unhas e dentes, que as pessoas neurodivergentes e que Brasília precisa. Não vou legislar só para os neurodivergentes, eu vou legislar para Brasília.
