Mais de US$ 18 bilhões. Foi esse o montante doado em 2024 por instituições filantrópicas para grupos que combatem a crise climática no mundo. O dado foi divulgado este ano pela Climateworks Foundation e traz, na superfície, uma notícia boa: em relação a 2023, o volume de recursos doados pela filantropia climática cresceu 30%.
O problema mora num aspecto menos vistoso: a distribuição desse financiamento. Apenas 17% do dinheiro doado foi destinado a organizações do Sul Global. Justamente a região do mundo que, por razões socioeconômicas, já sofre os efeitos mais severos da emergência climática.
O descompasso entre as urgências nos territórios e os recursos disponíveis para apoiar soluções vai além da filantropia climática. O fechamento de agências de cooperação e os cortes no financiamento público internacional —nos Estados Unidos e em países europeus—, bem como guerras e uma agenda internacional “antidireitos” têm ampliado a pressão sobre fontes de recursos.
Nesse contexto, fundações sediadas em países ricos concentram ainda mais seus investimentos no Norte Global, reduzindo o apoio disponível para os territórios do Sul. O problema é também temático: organizações que um dia financiaram áreas com potencial para gerar debates mais acalorados pisaram no freio.
Um levantamento recém-divulgado pela Philanthropic Initiative for Racial Equity constatou que doações para organizações negras, em 2023, caíram para patamares inferiores aos de 2014. Retrocedemos uma década. O resultado: se aprofundaram lacunas de financiamento.
O Fundo Brasil surgiu para agir sobre essas lacunas. Uma fundação filantrópica independente —sem vínculos com governos ou empresas— criada por ativistas para captar recursos para apoiar a sociedade civil organizada brasileira. E para fazer isso com uma abordagem redistributiva: fazer recursos chegarem aonde são mais escassos.
Atuamos por meio de parceria e confiança. São as organizações populares e de base territorial que nos apontam suas urgências de financiamento. Grupos, na sua maioria, com pouco ou nenhum acesso a outras fontes de recursos, formados por pessoas, comunidades e territórios que vivenciam os efeitos das violações que combatem.
Em 2026, o Fundo Brasil completou 20 anos de trabalho e mais de R$ 141 milhões doados. Diante de um mundo premido por guerras e crises, e diante dos movimentos de reorganização da filantropia internacional, o momento nos leva a refletir: qual é hoje, e qual será no futuro próximo, o papel de uma instituição independente como a nossa?
A missão de captar recursos e suprir lacunas de financiamento segue atual. Nos últimos anos, enquanto recursos destinados a organizações do movimento negro minguavam, o Fundo Brasil manteve chamadas públicas para apoiar organizações antirracistas.
Pelo programa de Justiça Criminal, doou mais de R$ 38 milhões a grupos brasileiros que ousam pensar modelos de segurança pública que respeitem os direitos humanos.
Se a filantropia climática internacional doa pouco para o Sul Global, em dois anos e meio colocamos R$ 8,9 milhões de reais nas mãos de povos indígenas e comunidades tradicionais, apoiando 224 projetos de 150 grupos cujos trabalhos e modos de vida protegem biomas e combatem a crise climática.
Também nos dedicamos a fortalecer redes de ação com outros fundos filantrópicos como o nosso, buscando ampliar recursos para as propostas da base da sociedade brasileira.
Entendemos que é desse modo que a filantropia local independente pode fazer a diferença. Ao conhecer as urgências e quem as enfrenta, ao confiar que territórios são capazes de apontar soluções para os problemas que os atingem e ao financiar de forma desburocratizada temas em que os recursos não chegam.
Não há dúvidas de que existe, nos territórios populares, uma abundância de projetos que, tirados do papel, ajudam a construir sociedades mais justas para todas as pessoas. É pela realização desses sonhos que o Fundo Brasil trabalha hoje e sempre.
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