Ex-prefeita de São Paulo recebeu 169.567 votos e retorna à Assembleia Legislativa depois de quase quatro décadas; sua história política inclui ações pioneiras pela inclusão de crianças vivendo com HIV nas escolas e uma atuação permanente em defesa dos direitos humanos
Aos 91 anos, Luiza Erundina (PSOL) está de volta à Assembleia Legislativa de São Paulo. Ex-prefeita da capital e deputada federal por sucessivos mandatos, ela foi eleita neste domingo (4) deputada estadual com 169.567 votos, alcançando a 13ª maior votação para a Alesp.
O retorno ao Legislativo paulista ocorre quase quatro décadas depois de Erundina deixar a Assembleia para disputar a Prefeitura de São Paulo, eleição que venceu em 1988. Mais do que a longevidade de uma carreira política, sua eleição recoloca na Alesp uma trajetória profundamente ligada à defesa dos direitos humanos, das políticas sociais, da educação pública, do direito à moradia e da saúde.
Entre os capítulos dessa história está também sua participação na resposta à epidemia de aids em São Paulo, especialmente em um período em que viver com HIV significava enfrentar, além de uma doença ainda cercada de incertezas, forte estigma, discriminação e até a negação de direitos básicos.
Quando crianças com HIV precisavam lutar para entrar na escola
Luiza Erundina governou São Paulo entre 1989 e 1992. Naquele período, Paulo Freire assumiu a Secretaria Municipal de Educação, em uma administração que colocou a democratização do ensino e a educação como direito entre suas prioridades.
Foi também naquele momento que as escolas começaram a ser confrontadas diretamente com uma das faces mais cruéis do preconceito relacionado à aids: a resistência à matrícula e à permanência de crianças vivendo com HIV.
Registros históricos sobre a gestão apontam que havia escolas que se recusavam a receber essas crianças. Em depoimentos reunidos em pesquisa sobre a educação municipal naquele período, uma educadora recorda que foi durante a administração Erundina que se implantou na rede um programa relacionado à aids e uma norma que determinava que as escolas recebessem crianças vivendo com HIV.
Um dos casos emblemáticos foi o de Sheila Cortopassi, criança que viveu com HIV e cuja tentativa de acesso à escola se transformou em símbolo da luta contra a discriminação.
Em entrevista publicada pela Agência Aids, a infectologista Glória Brunetti relembrou que, depois que a condição sorológica de Sheila se tornou conhecida, a menina foi expulsa da escola e outras instituições passaram a resistir à matrícula de crianças com HIV.
Segundo o relato, a situação chegou à Secretaria Municipal de Educação. Paulo Freire era o secretário e, devido a problemas de saúde, Mário Sérgio Cortella assumia naquele momento a condução cotidiana da pasta. A equipe passou então a trabalhar na formulação de políticas para garantir o acolhimento dessas crianças na rede pública. A gestão Erundina avançou na proibição de barreiras educacionais baseadas na sorologia para o HIV.
Era uma resposta que ultrapassava a saúde pública. Tratava-se de garantir que uma criança não fosse privada do direito de estudar simplesmente por viver com HIV.
Direitos humanos como marca da trajetória
A defesa de direitos atravessa outras áreas da atuação pública de Erundina. Sua passagem pela Prefeitura ficou marcada por iniciativas de democratização da educação, políticas de habitação popular construídas com participação dos movimentos sociais e medidas relacionadas à memória das vítimas da ditadura militar.
Já na Câmara dos Deputados, Erundina permaneceu ligada às pautas sociais e de participação popular. Em 2026, integrou como suplente a Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial e foi titular das comissões de Desenvolvimento Urbano e de Legislação Participativa.
Neste ano, foi também uma das autoras de requerimento para discutir na Câmara as condições de trabalho e episódios de violência policial envolvendo ambulantes, artesãos, imigrantes e artistas de rua na cidade de São Paulo.
Uma relação que atravessa a história da aids
A proximidade de Erundina com pessoas atingidas pela epidemia também aparece em registros posteriores à sua passagem pela Prefeitura.
Em 1996, durante uma campanha eleitoral, ela interrompeu a agenda para visitar no Instituto de Infectologia Emílio Ribas um menino de nove anos vivendo com aids que havia manifestado o desejo de conhecê-la. O pedido chegou a Erundina por intermédio do padre Júlio Lancelotti, então responsável pela Casa Vida, instituição que acolhia crianças vivendo com HIV e aids.
Dias depois, Erundina também visitou a Casa Vida, na Mooca, onde conviviam crianças afetadas pela epidemia.
São episódios que ajudam a reconstruir a dimensão de uma época em que crianças com HIV podiam ser afastadas da escola, famílias eram estigmatizadas e a resposta à epidemia dependia não apenas de medicamentos, mas da garantia de direitos básicos.
De volta à Alesp
Assistente social, paraibana de Uiraúna, Erundina iniciou sua trajetória parlamentar como vereadora e depois deputada estadual em São Paulo. Em 1988, tornou-se a primeira mulher eleita para comandar a Prefeitura da maior cidade do país.
Desde 1998, ocupou sucessivos mandatos na Câmara dos Deputados. Em 2026, decidiu disputar novamente uma cadeira no Legislativo paulista, afirmando durante a campanha que pretendia voltar a atuar mais próxima das bases sociais e dos movimentos populares.
Nas urnas, recebeu 169.567 votos, garantindo uma das nove cadeiras conquistadas pelo PSOL na nova composição da Assembleia. Erundina chegará novamente à Alesp em fevereiro de 2027 carregando uma trajetória que atravessa alguns dos debates mais importantes das últimas décadas no país.
Na história da aids, seu legado remete a um período particularmente duro da epidemia: quando garantir tratamento era fundamental, mas assegurar que uma criança com HIV tivesse o direito de entrar em uma sala de aula também fazia parte da resposta à doença.
Redação da Agência de Notícias da Aids
