Por Marcelle Ferraz
No dia 16 de outubro (sexta-feira), é celebrado o Dia Mundial da Alimentação e, apesar de o país atravessar um momento de avanços no combate à fome, ainda há quem fique de fora das estatísticas.
Para Sirlene Melo, assistente social do projeto “Sim, Eu Sou do Meio”, na Baixada Fluminense, e uma das lideranças do Projeto Saúde das Mulheres Negras, liderado por CRIOLA, é nesse ponto que o debate precisa avançar. “Não basta o Brasil sair do mapa da fome se ainda temos mulheres negras deixando de se alimentar adequadamente para garantir a comida dos filhos”, afirma.
No grupo de cerca de 50 mulheres que atende em Guaratiba (zona oeste do RJ), Iyá Katiúscia de Yemanjá, liderança comunitária, ativista de direitos humanos do Terreiro Obá Labi e integrante do projeto de CRIOLA, observa que mesmo as que têm casa, trabalham e não aparentam passar fome não conseguem garantir 30 dias de alimentação no mês. “Na última semana do mês, a despensa dessas mulheres geralmente fica completamente vazia. São pessoas que, olhando, parecem não estar passando por nenhum tipo de vulnerabilidade, mas que, na verdade, não conseguem fazer suas compras ao longo do mês”, explica.
Junto com Iyá Roberta de Yemanjá, líder do Instituto Cultural Águas do Amanhã, em Sepetiba (zona oeste do RJ), e Val Quilombola, líder do Quilombo do Feital, em Magé, elas avaliam que, nos territórios em que atuam, a fome vem junto com racismo, violência, falta de renda e sobrecarga de cuidado.
Porém, iniciativas comunitárias lideradas por elas e outras mulheres negras buscam minimizar os impactos da insegurança alimentar em seus territórios.
● Feira Solidária (Baixada – Sirlene Melo): recebe alimentos por meio de parcerias com instituições e programas de doação, organiza as entregas e usa o contato com as famílias para encaminhar as mulheres à rede de proteção (assistência social, saúde e atendimento a mulheres em situação de violência).
● Cozinha Solidária Raízes do Meio (Baixada – Sirlene Melo): combina o acesso imediato à comida com o fortalecimento da autonomia das mulheres, tratadas como sujeitas de direitos.
● Grupo Saúde e Segurança Alimentar (Guaratiba – Iyá Katiúscia): reúne cerca de 50 mulheres, em sua maioria negras e periféricas, em rodas de saúde que sempre começam com comida. O grupo ajuda a garantir o acesso às políticas de alimentação.
● Cozinha Solidária Ancestral (Guaratiba – Iyá Katiúscia): criada para trazer recursos de políticas públicas ao território. Distribui alimentos in natura e processados a cada 15 dias, mantém horta e inclui “matos de comer” (Plantas Alimentícias Não Convencionais – PANC), como alfavaca, manjericão e cidreira, sem oferecer industrializados.
● Cozinha Ancestral Solidária Ilê Inã (Instituto Cultural Águas do Amanhã, Sepetiba – Iyá Roberta de Yemanjá): acompanha 175 famílias cadastradas. Une acesso à alimentação, acompanhamento das famílias, formação, incidência política, valorização da cultura alimentar afro-brasileira e fortalecimento da autonomia das mulheres negras.
● REDE ICAA – Cozinhas Ancestrais e Solidárias BR (Sepetiba – Iyá Roberta de Yemanjá): articula cozinhas comunitárias, lideranças e iniciativas territoriais, com troca de experiências, valorização dos saberes tradicionais e articulação para acessar políticas de segurança alimentar.
● Restauração de manguezal e meliponicultura (Quilombo do Feital, Magé – Val Quilombola): projeto em que a maior parte das vagas é destinada a mulheres, com ajuda de custo e curso de criação de abelhas sem ferrão, realizado dentro do manguezal, perto de casa. Enquanto as mães estudam, duas mulheres cuidam das crianças. “Para as mães poderem fazer o curso tranquilas, duas mulheres tomam conta das crianças enquanto elas estão em aula. A carga horária é de seis horas, e dá tempo de levar o filho à escola. Então isso é autonomia e segurança. E tem trazido melhorias na vida não só delas, mas também dos filhos e dos maridos”, conta Val.
As lideranças lembram que a insegurança alimentar vai além da falta de comida
● Fome sem aparência de fome: mulheres com moradia e até emprego procuram cestas e cozinhas solidárias porque a renda não é suficiente. Na última semana do mês, a despensa já está vazia.
● Qualidade x quantidade: muitas famílias compram o mais barato, mas nem sempre conseguem consumir frutas, verduras, legumes e proteínas com regularidade.
● O custo de cozinhar: alimentar-se também depende de gás e energia elétrica.
● Sobrecarga: mães solo e chefes de família, muitas na informalidade, adiam exames e consultas porque precisam trabalhar para garantir a comida da casa.
● Vergonha: muitas mulheres não relatam a falta de comida nem em rodas de conversa.
● Fome e violência: em territórios com altos índices de violência doméstica, a falta de comida pode levar mulheres a retornar a ciclos de violência.
● A fome tem raça, gênero e território: segundo Iyá Roberta, as mulheres negras estão entre as mais afetadas pela precarização do trabalho, pela desigualdade de renda e pela sobrecarga do cuidado.
● Elas comem menos para alimentar os outros: muitas garantem a comida de toda a família e reduzem a quantidade ou a qualidade do que elas mesmas consomem.
● Escolhas impossíveis: a renda insuficiente obriga mulheres a escolher entre comprar comida, pagar as contas ou comprar remédios.
O que as lideranças defendem
Para Iyá Roberta, o primeiro passo é mudar a forma como o país enxerga o tema. “Precisamos compreender a alimentação adequada como um direito humano, e não como favor, caridade ou ação emergencial. Não podemos depender exclusivamente do trabalho voluntário e da capacidade de resistência das comunidades para garantir um direito que é responsabilidade do Estado”, afirma.
Entre as reivindicações das lideranças, estão:
● Fortalecer e dar continuidade às políticas de alimentação (Bolsa Família, PAA, bancos de alimentos e cozinhas solidárias), sem interrupções.
● Incluir as cozinhas de terreiro nas políticas de alimentação.
● Reconhecer as cozinhas ancestrais e solidárias como parte da estrutura de segurança alimentar do país, com financiamento contínuo, assistência técnica e apoio institucional, sem depender do trabalho voluntário das comunidades.
● Gerar emprego e renda, qualificar profissionalmente e ampliar a autonomia econômica de mulheres negras.
● Ampliar o acesso a creches públicas.
● Integrar SUS e SUAS e enfrentar o racismo institucional no acesso aos serviços.
● Implementar a Política Nacional do Cuidado nos municípios.
● Garantir a implementação, a permanência e o monitoramento das políticas para que as mulheres se mantenham na mobilidade social que conquistam.
● Construir as políticas com mulheres negras e organizações de base, com consultas que vão além do formato online, além de escuta e pesquisa nos territórios.
● Melhorar a mobilidade urbana, que hoje limita o acesso a estudo e serviços.
● Fortalecer a alimentação escolar e a compra de alimentos da agricultura familiar, além de ampliar o acesso à água potável, ao saneamento básico e à saúde integral da população negra.
● Garantir que as mulheres negras participem da formulação, da execução e do monitoramento das políticas que impactam suas vidas.
Sobre CRIOLA
CRIOLA é uma organização da sociedade civil fundada em 1992 e conduzida por mulheres negras. Atua na defesa e na promoção dos direitos das mulheres negras, em uma perspectiva integrada e transversal. Sua missão é trabalhar pela erradicação do racismo patriarcal cisheteronormativo, contribuindo para instrumentalizar meninas e mulheres negras, cis e trans, na garantia de direitos, da democracia, da justiça e do Bem Viver.
