InícioBrasilA ONU de Guterres e a institucionalização do absurdo

A ONU de Guterres e a institucionalização do absurdo

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O português António Guterres fez nesta semana seu último discurso como secretário-geral diante da Assembleia Geral das Nações Unidas. Seu mandato termina em 31 de dezembro. Depois de dez anos no cargo, a despedida oferece uma oportunidade menos sentimental e mais útil: olhar para aquilo em que a ONU se transformou nesse período.

O problema não é dizer que Guterres provocou sozinho a decadência da organização. O secretário-geral não escolhe quem ocupa o Conselho de Direitos Humanos nem distribui presidências de comissões. A ONU foi desenhada para acomodar governos que não compartilham os mesmos valores. A questão é outra. Durante sua gestão, contradições que deveriam produzir constrangimento passaram a fazer parte da rotina institucional. O absurdo foi normalizado.

Veja a fotografia atual. A China ocupa uma cadeira no Conselho de Direitos Humanos até o fim de 2026. É o mesmo governo que o próprio Escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos acusa de graves violações em Xinjiang. O relatório da ONU descreveu detenções arbitrárias em larga escala e considerou críveis denúncias de tortura, maus-tratos e violência sexual contra uigures e outras minorias muçulmanas. Concluiu ainda que algumas dessas práticas podem constituir crimes contra a humanidade. Em Hong Kong, organismos da própria ONU vêm alertando para os efeitos das leis de segurança nacional sobre as liberdades civis e políticas.

A Arábia Saudita ofereceu outra dessas contradições. Em 2025, o reino presidiu à 69ª sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher. O país promoveu reformas importantes e ampliou a participação feminina em várias áreas. Mas continuam existindo questionamentos internacionais sobre discriminações legais, especialmente no direito de família. Novamente, o mecanismo ajuda a explicar o absurdo. A presidência não foi uma homenagem concedida pessoalmente por Guterres. Resultou da dinâmica interna da comissão. É justamente esse o problema. O sistema consegue produzir situações evidentemente contraditórias e depois explicá-las recorrendo ao regulamento.