Entre terapias, cuidados e responsabilidades, mães de crianças atípicas enfrentam exaustão emocional, culpa e falta de tempo para si; especialistas alertam para sinais que não devem ser normalizados

Por Vitória Serrão.
A maternidade é marcada por mudanças, responsabilidades e uma rotina que passa a ser atravessada pelas necessidades de outro ser. Para mães de crianças atípicas, essa jornada pode ser ainda mais complexa. Na rotina intensa de cuidados com filhos que têm necessidades específicas, como transtorno do espectro autista (TEA), deficiências do desenvolvimento ou condições crônicas, algo muitas vezes acaba ficando em segundo plano: elas mesmas.
Entre consultas, terapias, cuidados diários e as demandas que acompanham cada realidade, essas mulheres também podem lidar com medo, culpa, insegurança e sobrecarga emocional. Dessa forma, os impactos dessa rotina aparecem também podem afetar a saúde mental da mulher, em uma pesquisa com quase 2 mil mães de crianças com autismo foi identificado que 35,8% apresentavam sintomas concomitantes de depressão e ansiedade.
O dado evidencia uma realidade que muitas vezes permanece nos bastidores do cuidado: enquanto a atenção está voltada às necessidades dos filhos, a saúde emocional de quem cuida também pode ficar vulnerável.
O cuidado também é importante para quem cuida
A maternidade envolve uma série de mudanças na rotina e uma carga significativa de responsabilidades. Para mães de crianças atípicas, essa realidade pode ser ainda mais intensa, diante das demandas relacionadas a terapias, cuidados específicos e acompanhamento contínuo dos filhos.
Segundo o médico psiquiatra Luís Carlos Murari, o cansaço faz parte da experiência da maternidade, especialmente nos primeiros meses, quando a mulher enfrenta privação de sono, mudanças na rotina e uma nova demanda emocional. O alerta surge quando esse cansaço deixa de ser passageiro e começa a interferir na forma como ela vive e se percebe.

“Não é mais apenas ‘estou cansada’, mas começa a aparecer ‘eu não estou dando conta de mais nada’”;explica Luís.
Entre os sinais que podem indicar que a mulher está ultrapassando esse limite, o psiquiatra cita irritabilidade constante, choro frequente, ansiedade excessiva, culpa, dificuldade para dormir mesmo quando há oportunidade, perda do prazer, sensação de incapacidade, isolamento e dificuldade para se reconhecer na própria vida.
Outro sinal de alerta, segundo Luís, é quando a mãe passa a funcionar apenas no chamado “modo sobrevivência”, no qual mantém os cuidados com o filho, a casa, o trabalho e outras obrigações, mas emocionalmente começa a se apagar.
“A maternidade pode ser cansativa. Mas sofrimento persistente, perda de funcionalidade e sensação de esgotamento não devem ser simplesmente normalizados como “coisa de mãe”, ressalta.
A sobrecarga prolongada também pode afetar diferentes áreas da vida. Murari explica que meses ou anos colocando as próprias necessidades em segundo plano podem estar associados a irritabilidade, ansiedade, alterações do sono, dificuldade de concentração, perda de memória, redução da libido, culpa, exaustão emocional e sintomas depressivos.
Esses efeitos, segundo ele, podem alcançar os relacionamentos, o trabalho e a própria experiência da maternidade. Há ainda uma questão relacionada à identidade: algumas mulheres passam a ser reconhecidas apenas pelo papel de mãe e deixam de lado hobbies, amizades, atividade física, projetos profissionais e outros aspectos da própria vida.
“Quando uma mulher desaparece para conseguir ser mãe, alguma coisa precisa mudar. O filho precisa de uma mãe presente, não de uma mãe anulada”, reflete.
“Além de mãe, onde está você nessa rotina?”. A pergunta, segundo o psiquiatra, é uma forma de provocar a reflexão sobre o espaço que essa mulher ainda ocupa na própria vida. Para ele, cuidar de si não significa amar menos o filho.
“Autocuidado não é egoísmo, é manutenção emocional”, explica:
O ‘Olhar Eficiente’ de uma mãe que luta por inclusão
A história de Marina Donine, fundadora da organização Olhar Eficiente, ajuda a dimensionar como essa sobrecarga pode atravessar a vida de uma mãe atípica.

Marina é mãe de gêmeos de 23 anos, um homem e uma mulher, ambos autistas. A filha também tem uma doença rara, além de autismo severo e demência frontotemporal. O filho tem autismo nível 1 e cursou uma faculdade.
Ela conta que, há mais de duas décadas, quando os filhos ainda eram crianças, o acesso a informações, tratamentos e serviços especializados era muito mais limitado.
“Eu passei mais de 11 anos da minha vida cuidando dos meus filhos em terapia, porque a gente não tinha nada praticamente. E foi um momento assim que eu falo que eu não me arrependo, porque era necessário. Mas a gente deixa realmente de cuidar da gente, a gente se anula como pessoa”, diz Marina.
A sobrecarga também se somou a dificuldades na vida familiar. Marina relata ter vivido violência psicológica e financeira no relacionamento com o pai dos filhos e precisou esperar até conseguir voltar ao trabalho para conquistar maior autonomia.
A experiência pessoal acabou se transformando em atuação social. Há cerca de 15 anos, Marina se especializou em áreas relacionadas ao neurodesenvolvimento e passou a atuar na defesa dos direitos de pessoas com deficiência e suas famílias, em Guarulhos, na região Metropolitana de São Paulo.

À frente da Olhar Eficiente, ela afirma que a organização atualmente atende cerca de 150 famílias e trabalha para ampliar esse número. O atendimento contempla aproximadamente 400 pessoas, entre crianças, adolescentes e adultos, além de oferecer grupos de apoio e ações de conscientização.
A proposta, segundo Marina, é olhar não apenas para a pessoa atípica, mas para todo o núcleo familiar. A organização atua também em demandas relacionadas a direitos, emprego, transporte e situações de violência.
“Não só os filhos, mas os filhos, a família e tudo que essas famílias precisam, destaca.
Para Marina, essa abordagem é necessária porque muitas mães acabam sozinhas na rotina de cuidados e também podem vivenciar situações de violência dentro de casa.
Ser uma mãe forte não é ser uma mãe perfeita
A ideia de que a mãe precisa ser forte o tempo inteiro também pode contribuir para a invisibilização do sofrimento. Para o psiquiatra Luís Murari, existe uma idealização da maternidade que associa força à capacidade de suportar tudo em silêncio, sem reclamar, pedir ajuda ou demonstrar cansaço.
Ele defende uma mudança nessa percepção. Em vez da imagem da mãe que consegue dar conta de tudo, o especialista propõe reconhecer os limites e as necessidades reais dessas mulheres.
“Precisamos substituir a ideia da ‘mãe forte’ pela ideia da ‘mãe possível’”, pontua.
Nessa perspectiva, pedir ajuda, dividir responsabilidades e reconhecer os próprios limites não diminuem o papel materno. Pelo contrário, são formas de preservar a saúde da mulher que está à frente dos cuidados.
A educadora parental Sabrina Carneiro também questiona a ideia de perfeição associada à maternidade. Para ela, uma mãe forte não é aquela que consegue fazer tudo, mas aquela que consegue reconhecer as próprias necessidades e rever prioridades.

Sabrina explica que a rotina intensa pode fazer com que a mulher deixe de realizar atividades que antes faziam parte de sua vida, como encontrar amigos, praticar hobbies, cuidar do corpo ou simplesmente ter momentos para si. Com pequenas mudanças e, quando necessário, apoio profissional, ela afirma que é possível reorganizar prioridades e recuperar esse espaço.
“Filhos não precisam de mães perfeitas, e sim mães felizes.Uma mãe que lidera sua maternidade entende que se cuidar não é egoísmo e descansar é fundamental para a regulação emocional. Ela também aprende a fazer escolhas, decide de acordo com uma rotina que fortalece a sua família e não as expectativas da sociedade que vive numa agenda”, destaca.
A educadora também chama atenção para a exaustão física, mental e emocional prolongada, que pode evoluir para o chamado burnout parental. Segundo ela, antes de chegar a quadros mais graves, a sobrecarga pode apresentar sinais que precisam ser observados.
Nesse processo, a mãe pode deixar de se reconhecer, agir cada vez mais no automático, esquecer compromissos e horários e ter dificuldades de conexão emocional com os filhos e com o parceiro. Sabrina ressalta, porém, que o burnout parental não é o mesmo que depressão e que a identificação precoce da sobrecarga permite mudanças antes que a situação se agrave.
Para ela, o cuidado consigo mesma também influencia a maneira como a mulher exerce a maternidade.
“Uma mulher forte sabe que se escolher todos os dias é escolher os filhos também. Nossos filhos modelam comportamentos e quando se espelham em adultos conscientes que regulam suas emoções para corrigir um comportamento, dão os limites necessários para a infância, falam com respeito, sabem ter as expectativas corretas de cada fase e lutam por um relacionamento focado na conexão e no amor dentro do lar, elas já estão quebrando padrões e ajudando os filhos a crescerem fortes também”, finaliza.
