O alto comissário da ONU para os Direitos Humanos, Volker Turk, defendeu a justiça reparatória como caminho para conter o avanço do racismo. A fala ocorreu durante o evento “Diálogo de Alto Nível sobre Justiça Reparatória para Africanos e Pessoas de Ascendência Africana”, em Genebra, na Suíça.
Turk lembrou manifestações de racismo vivenciadas por descendentes de africanos: a entrevista de emprego que nunca acontece, o apartamento que não está mais disponível, a dor que não é levada a sério no hospital e as habilidades subestimadas na escola.
Ele afirmou que, em diferentes regiões, esse grupo também tem mais chance de ser alvo da força policial.
“Uma criança nascida em 2026 não deveria ter de carregar o peso de séculos de discriminação racial e dos horrores do passado”, enfatizou.
O alto comissário ressaltou que o comércio de africanos escravizados “tratou milhões de pessoas como meras mercadorias, privando-as de sua humanidade”.
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Novas tendências
Turk disse que essas injustiças permanecem vivas em novas tendências. Uma delas é o movimento de “supremacia branca” que se aproveita do medo e da divisão e cria narrativas que fomentam o ódio e a desumanização. Outra preocupação é a inteligência artificial, que muitas vezes reproduz preconceitos e contribui para aprofundar o racismo.
O alto comissário defendeu medidas para reparar injustiças históricas e quebrar o ciclo de discriminação. Ele afirmou que a justiça reparatória não deve ser confundida apenas com compensação financeira.
Outras formas de colocá-la em prática são pedidos formais de desculpas, restituição de artefatos culturais, estabelecimento da verdade sobre a história e preservação da memória.
Segundo Turk, alguns governos, entre eles Brasil, Bélgica, Alemanha e Países Baixos, pediram desculpas às suas próprias comunidades ou a outros Estados.
No início deste ano, o Papa Leão 14 também pediu perdão pelo envolvimento da Igreja Católica na legitimação da escravidão e pela demora em condená-la ao longo de séculos.
Na França, na Namíbia, na Suíça e no Reino Unido, alguns espaços públicos e monumentos estão sendo revisitados para reconhecer os legados da escravidão, do tráfico de escravos e do colonialismo.
Sistema econômico
O chefe de Direitos Humanos disse que os governos precisam ir além e promover a igualdade racial por meio de leis, investimentos direcionados, revisão do ensino da história e reformas no sistema financeiro. Turk destacou que o sistema econômico global “ainda reflete séculos de exploração”.
Nesse sentido, os países em desenvolvimento, muitos dos quais são ex-colônias, estão sobrecarregados por “dívidas insustentáveis”, o que os impede de realizar investimentos cruciais para o bem-estar de suas populações.
O alto comissário concluiu dizendo que reparar os danos do passado é o caminho para desmantelar as bases do racismo sistêmico e proteger gerações futuras deste flagelo, ajudando a construir sociedades mais fortes e coesas para todos.
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