Estudo inédito avaliou 5.570 municípios e identificou desigualdades em sete dimensões, com participação política e saúde entre os principais desafios das mulheres

Por Vitória Serrão.
A garantia dos direitos das mulheres ainda é um desafio no Brasil. Dados do Índice Municipal de Gênero (IMG) mostram que as desigualdades estão presentes em praticamente todo o território nacional.
Desenvolvido pela consultoria Tewá 225, no âmbito do programa Cidades para Mulheres, o IMG reúne dados públicos dos 5.570 municípios brasileiros. O levantamento busca preencher lacunas de informações municipais com recorte de gênero e apoiar a formulação de políticas públicas baseadas em evidências.
Como funciona o índice
O IMG avalia as condições de vida das mulheres em sete dimensões: saúde, educação, trabalho e renda, participação política, segurança, proteção social, infraestrutura e mobilidade. Ao todo, são 17 indicadores, selecionados conforme a disponibilidade, a qualidade, a atualização e a cobertura dos dados.
O levantamento utiliza bases públicas nacionais, como o Censo Demográfico de 2022, a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2024, registros eleitorais de 2024, sistemas de saúde de 2024 e 2025, dados de violência de 2021 a 2025 — incluindo SINAN e SINESP — e informações do Programa Bolsa Família.
Cada indicador recebe uma pontuação de zero a 100. Quanto maior o resultado, mais favoráveis são as condições avaliadas, em escala semelhante à do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).
A média nacional do IMG é de 50,60 pontos. Águas de São Pedro (SP) tem a maior pontuação, com 67,06, enquanto Uiramutã (RR) registra a menor, com 28,14. Nenhum município ultrapassa 70 pontos, e nove em cada dez estão na faixa entre 40 e 60. Isso indica que até os melhores resultados ainda estão distantes de condições plenamente favoráveis à vida das mulheres.
Participação política é a dimensão mais frágil
Em 87,18% dos municípios, pelo menos uma dimensão apresenta menos de 30 pontos. Em nove de cada dez cidades, participação política ou saúde está entre as áreas com pior desempenho.
A participação política tem a menor média nacional, com 29,59 pontos, seguida pela saúde, com 30,42.
Para Luciana Sonck, coordenadora executiva do IMG e CEO da Tewá 225, os Conselhos Municipais dos Direitos da Mulher são essenciais para ampliar a participação feminina na formulação de políticas públicas e aproximar as demandas das mulheres da gestão municipal.

“Quando quase sete em cada dez municípios não têm esse conselho, perdemos uma instância importante de escuta, fiscalização e articulação entre áreas como saúde, assistência social, segurança, educação e trabalho. Isso impacta diretamente a prevenção da violência, porque a proteção precisa começar antes da denúncia ou de uma situação extrema. Ela depende de uma rede local preparada, canais acessíveis de acolhimento, dados confiáveis e ações permanentes que promovam direitos e autonomia”, afirma.
Segundo Luciana, a baixa pontuação dificulta o reconhecimento de problemas locais, a definição de prioridades e o acompanhamento das políticas públicas.
O fortalecimento dos conselhos, com estrutura, orçamento e participação de mulheres negras, indígenas, periféricas e de outros grupos vulnerabilizados, pode contribuir para ações mais próximas da realidade de cada território.
As diferenças regionais também são expressivas. Na participação política, o Nordeste tem a maior média, com 38,17 pontos, enquanto o Sudeste registra a menor, com 22,14. Na saúde, o Sul lidera, com 37,29 pontos, e o Norte apresenta o pior resultado, com 20,51.
Trabalho e renda
A dimensão de trabalho e renda tem média nacional de 40,41 pontos. O resultado reflete não apenas o acesso ao emprego, mas também as condições necessárias para a permanência das mulheres no mercado de trabalho.
A taxa média de ocupação feminina é de 39,48%. Nos municípios com maior cobertura de creches, de 18,4%, a pontuação relativa à ocupação feminina chega a 66,26 pontos.
Os dados reforçam a importância de ampliar o acesso à educação infantil para conciliar trabalho remunerado e responsabilidades de cuidado.
Segurança e subnotificação da violência contra as mulheres
A dimensão de segurança avalia as condições de proteção com base em registros oficiais de feminicídio, violência doméstica e familiar e estupro, acumulados nos cinco anos anteriores e calculados proporcionalmente à população.
Apesar de ter a maior média nacional, com 91,88 pontos, a dimensão também revela limitações nos registros. Cerca de 27% dos municípios — 1.480 cidades — não registraram feminicídios no período analisado. Também não há registros de estupro em 591 municípios e de violência doméstica em outros 84.

A ausência de notificações, porém, não significa que esses territórios estejam livres de violência.
“O registro zero pode refletir subnotificação, dificuldades de acesso aos canais de denúncia, limitações das redes locais de acolhimento e registro ou a concentração das notificações em polos regionais maiores. Em municípios pequenos, a falta de equipamentos especializados, a distância até delegacias e serviços de saúde, o receio de denunciar e a dependência econômica ou emocional do agressor podem impedir que a violência seja identificada”, explica Luciana.
Em 2025, o Brasil registrou 1.571 feminicídios, o equivalente a uma mulher assassinada a cada seis horas. Também foram contabilizados mais de 84 mil estupros, com taxa de 39,5 casos por 100 mil habitantes, e 286 mil registros de lesão corporal decorrente de violência doméstica.
A violência doméstica teve média de 619,85 registros por 100 mil habitantes e ultrapassou 7.300 casos em alguns municípios.
“Resultados muito altos combinados com registros nulos são um ponto de atenção para os gestores. Sem dados consistentes, redes estruturadas e canais acessíveis de denúncia, o município não consegue dimensionar o problema nem formular políticas adequadas. A ausência de informação também faz parte do problema”, ressalta.
Mulheres negras e indígenas são as mais afetadas
Os recortes raciais e territoriais mostram que mulheres negras e indígenas estão entre as mais afetadas pelas desigualdades. Entre os municípios com pior desempenho no IMG, há maior presença dessas populações e concentração de cidades da região Norte.
Dos 106 municípios com pontuação inferior a 40, 64,15% estão no Norte. Nessas localidades, a população negra representa, em média, 70,32% dos habitantes, e a população indígena corresponde a 11,05% — proporção dez vezes superior à média nacional.
“Os dados do IMG mostram que raça e território estão diretamente relacionados às condições de vida das mulheres. Essas populações vivem com mais frequência em locais onde os serviços públicos e as redes de proteção são mais distantes, menos estruturados ou concentrados em cidades maiores”, afirma Luciana.
A distância até delegacias, unidades de saúde e serviços de assistência social, além da falta de transporte e atendimento especializado, dificulta o acesso à informação, à denúncia e ao acolhimento.
“Para mulheres indígenas, é fundamental considerar especificidades culturais, linguísticas e territoriais. Para mulheres negras, o racismo estrutural pode influenciar tanto a exposição à violência quanto a forma como são recebidas pelas instituições. Por isso, não basta criar uma política uniforme para todo o país”, acrescenta.
Capitais não são necessariamente as melhores cidades para as mulheres
Embora as capitais apresentem, em média, resultados superiores aos dos demais municípios, nem sempre lideram o IMG em seus estados. Segundo o levantamento, isso ocorre em apenas quatro unidades da Federação. O Distrito Federal, que não possui municípios, tem organização territorial diferente.
Em São Paulo, 34 municípios superam a capital. No Rio Grande do Sul, Porto Alegre tem pontuação inferior à de 54 cidades do estado.
O levantamento também mostra diferenças que não seguem necessariamente o padrão regional. Pernambuco aparece como destaque positivo: 79,46% de seus municípios estão acima da média nacional do IMG. O estado supera Paraná, com 71,68%, além de Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo.
Na região Norte, Roraima é o único estado em que nenhum município alcança a média nacional.
Educação amplia oportunidades
A educação tem média nacional de 45,19 pontos e está entre as dimensões com maior desigualdade entre os municípios. A diferença entre o 1% com pior desempenho e o 1% com melhor resultado ultrapassa 60 pontos, evidenciando disparidades na conclusão da educação básica entre as mulheres.

O Sudeste registra a maior média regional, com 51,92 pontos, enquanto o Nordeste tem a menor, com 37,72. As 27 capitais estão acima da média nacional, com pontuação média de 80,96, quase o dobro da registrada nos demais municípios.
O IMG também aponta relação entre escolaridade e inserção no mercado de trabalho. Nos municípios com melhores resultados educacionais, a pontuação relativa à participação feminina no mercado passa de 52,32 para 71,92 pontos.
Os dados reforçam o papel da educação básica na ampliação das oportunidades profissionais, da renda, da participação social e do acesso a direitos.
Proteção social exige atenção à chefia feminina dos domicílios
A dimensão de proteção social considera a proporção de famílias beneficiárias do Bolsa Família e de domicílios chefiados por mulheres. Os indicadores devem ser analisados em conjunto: a chefia feminina pode representar autonomia, mas também sobrecarga e responsabilidade exclusiva pelo sustento familiar. Já a cobertura do programa indica tanto vulnerabilidade econômica quanto alcance da política de transferência de renda.
Em média, 44,92% dos domicílios brasileiros são chefiados por mulheres. O percentual chega a 48,32% nos municípios mais pobres e a 49,53% nas cidades com mais de 100 mil habitantes.
O índice aponta ainda que 32,85% dos municípios combinam alta proporção de domicílios chefiados por mulheres e elevada cobertura do Bolsa Família. Em outros 17,10%, a chefia feminina é alta, mas a cobertura do programa é baixa, o que pode indicar lacunas de proteção social.
Nos municípios com maior proporção de população negra, a chefia feminina alcança 48,46% dos domicílios, enquanto a cobertura do Bolsa Família chega a 54,75%. Os dados mostram a sobreposição entre desigualdade racial, vulnerabilidade econômica e responsabilidades familiares.
Infraestrutura e mobilidade também afetam a qualidade de vida
A dimensão de infraestrutura e mobilidade registra média nacional de 91,35 pontos. Apesar do resultado elevado, o tempo de deslocamento varia conforme o porte dos municípios.
Nas cidades com até 5 mil habitantes, 2,98% das mulheres gastam mais de uma hora no trajeto diário. Nos municípios com mais de 500 mil habitantes, o percentual é seis vezes maior, chegando a 17,98%.
Considerando os municípios que concentram 41,7% da população brasileira, uma em cada dez mulheres leva mais de uma hora no deslocamento entre casa e trabalho.
Os dados mostram que infraestrutura e mobilidade devem ser analisadas junto a outras dimensões, pois o tempo de deslocamento e o acesso aos serviços afetam as oportunidades profissionais e a rotina das mulheres.
Políticas públicas precisam considerar as realidades locais
Para Luciana Sonck, a prevenção da violência de gênero não pode se limitar à atuação policial ou às medidas adotadas após uma violação. É necessário articular políticas de saúde, educação, assistência social, trabalho e renda, participação política, infraestrutura, mobilidade e segurança.

“Na prática, isso significa integrar registros e fluxos da saúde, da assistência, da segurança e dos serviços especializados, com protocolos claros de acolhimento, avaliação de risco, encaminhamento e acompanhamento. A mulher não pode percorrer sozinha diferentes serviços nem repetir desnecessariamente seu relato”, afirma.
A coordenadora também destaca a necessidade de capacitação contínua dos profissionais, atendimento humanizado e ações em áreas afastadas.
“A proteção precisa ser integral e articular segurança, moradia temporária, acesso à Justiça, cuidado das crianças e políticas de autonomia econômica, renda e creche. A dependência financeira e a falta de uma rede de apoio podem dificultar o rompimento com a violência. Os municípios também precisam desenvolver ações permanentes de prevenção e educação para relações não violentas, além de integrar dados municipalizados com recortes de raça e território”, acrescenta.
O IMG contribui para esse planejamento ao identificar lacunas e grupos que enfrentam mais barreiras em cada município. Com base no diagnóstico, as gestões podem direcionar recursos, fortalecer os Conselhos Municipais dos Direitos da Mulher e construir redes de proteção permanentes e articuladas.
Sobre a Tewá 225
A Tewá 225 é uma consultoria que desenvolve estudos e projetos para enfrentar problemas socioambientais de empresas, organizações e governos. Desde 2013, utiliza uma metodologia própria de escuta e participação social, considerando gênero, raça, territorialidade e gestão do conhecimento.
A empresa também é responsável pelo estudo Piores Cidades para Ser Mulher, que mapeia municípios e capitais brasileiras com base nas metas do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5 (ODS 5), relacionado à igualdade de gênero.
Acesse o Índice Municipal de Gênero completo: clique aqui.
