O papa Leão XIV alertou nesta sexta-feira, 25, que um “paraíso das máquinas” pode ameaçar a humanidade. Ao iniciar sua viagem à França, o pontífice levantou questões sobre o que significa ser humano em uma era marcada pelo avanço da inteligência artificial (IA), pela corrida armamentista nuclear e por outras ameaças à vida.
Em seu discurso de abertura ao presidente Emmanuel Macron e a autoridades no Palácio do Eliseu, e posteriormente a diplomatas e funcionários das Nações Unidas na sede da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), Leão XIV manifestou preocupação com os efeitos do progresso científico sobre a vida e os direitos humanos.

O papa Leão XIV acena para a multidão ao iniciar seu trajeto pelas ruas de Paris no papamóvel. Foto: THOMAS SAMSON/AFP
Em meio às guerras na Europa e no Oriente Médio, o papa reafirmou a oposição do Vaticano às armas nucleares e classificou como “equivocada” a doutrina da dissuasão nuclear, segundo a qual a ameaça de retaliação impede novos conflitos. Para ele, essa estratégia apenas alimenta uma nova corrida armamentista.
“A paz não é um equilíbrio de poder; pelo contrário, ela se constrói dia a dia por meio do diálogo e da justiça”, disse.
Leão XIV terá quatro dias de compromissos na França, país em que a Igreja Católica perdeu influência sobre questões éticas em razão da tradição de laicidade incorporada à Constituição. Os sinos das igrejas tocaram em diferentes partes do país quando o voo fretado do papa pousou no aeroporto de Orly, em Paris. Mais de 1 milhão de pessoas são esperadas para acompanhar a visita, a primeira visita de Estado oficial de um papa à França em 18 anos.
Nas ruas da capital, grupos de pessoas se concentraram para acompanhar a passagem da comitiva. O presidente francês afirmou que a presença do pontífice representa “uma fonte de esperança” para muitos franceses.
“A França está do lado da paz, do multilateralismo eficaz, do respeito pelo direito internacional e pela Carta das Nações Unidas (…) porque toda vida tem o mesmo valor e todos os povos devem ser defendidos”, afirmou Macron.
Ao contrário de Francisco, que costumava priorizar viagens a comunidades católicas menores e mais distantes de Roma, Leão XIV tem buscado enfatizar as raízes cristãs da Europa e reforçar a mensagem da Igreja sobre o valor e a dignidade da vida humana.

O papa Leão XIV, à esquerda, e o presidente da França, Emmanuel Macron, participam de declaração conjunta no Palácio do Eliseu, nesta sexta-feira, 25. Foto: Teresa Suarez/AP
A agenda do pontífice ocorre em um momento de debates sobre temas caros à Igreja Católica na França. O direito ao aborto foi incluído na Constituição francesa em 2024, e os legisladores aprovaram recentemente um projeto de lei que permite a adultos com doenças incuráveis o acesso a medicamentos para provocar a própria morte.
A hierarquia católica francesa se opôs às duas medidas, em linha com a doutrina católica de defesa da vida desde a concepção até a morte natural.
Em seu discurso a Macron e a outras autoridades, Leão XIV lembrou as “profundas raízes cristãs” da França e afirmou que o direito à vida é o “alicerce indispensável de todos os outros direitos humanos”.
A preocupação do pontífice com a dignidade humana também se estendeu aos efeitos do avanço da inteligência artificial.
“O paradoxo tornou-se cada vez mais evidente: enquanto a ‘inteligência’ é atribuída aos sistemas computacionais, lutamos para reconhecer a dignidade inalienável das pessoas humanas, cujas vidas são julgadas segundo o critério da eficiência e, quando consideradas não mais produtivas, são rejeitadas e descartadas”, afirmou.
Desde o início de seu pontificado, Leão XIV tem apontado a inteligência artificial como um dos principais desafios para a humanidade. Em sua primeira encíclica, Magnífica Humanidade, defendeu uma regulamentação mais rígida e pediu que desenvolvedores de IA trabalhem em favor do bem comum, e não apenas do lucro.
Na França, o papa também fez um apelo a desenvolvedores e autoridades responsáveis pela regulamentação da tecnologia para que desacelerem seu avanço e adotem critérios éticos.
“Se quisermos evitar perder nossa humanidade em meio a um ‘paraíso de máquinas’ que invade e condiciona nosso cotidiano, há uma necessidade urgente de educação em discernimento ético e na capacidade de reconhecer o bem moral”, disse.
A caminho de Paris, em conversa com jornalistas, Leão XIV afirmou estar satisfeito com a repercussão de suas mensagens e disse esperar que o diálogo iniciado pelo Vaticano com empresas de tecnologia continue.
“E acho que, da perspectiva deles, muitos estão bastante abertos a buscar maneiras de garantir que a IA não substitua ou, em última instância, destrua a humanidade, mas sim que seja uma ferramenta para os seres humanos”, afirmou. “Pelo menos, coisas boas estão começando a acontecer.” /AP

