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Livro de potiguar que investiga preconceito contra o Nordeste é finalista do Vladimir Herzog

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“Até que você entrega nos prazos, apesar de ser do Nordeste.” A frase poderia passar como uma piada ruim, daquelas que se dissolvem no ambiente de trabalho depois de um constrangimento. Para o jornalista e pesquisador potiguar Octávio Santiago, porém, ela ficou. Assim como outra: “mas nem cara de nordestino você tem”.

Foram comentários desse tipo, ouvidos por ele e relatados por amigos e familiares, que ajudaram a transformar um incômodo cotidiano em uma pergunta de pesquisa: de onde veio a ideia de que existe um jeito de ser nordestino e, sobretudo, de que esse jeito pode ser associado ao atraso, à incapacidade, à pobreza ou à ignorância?

A pergunta atravessou uma pesquisa de doutorado realizada na Universidade do Minho, em Portugal, e deu origem ao livro Só sei que foi assim: a trama do preconceito contra o povo do Nordeste, publicado pela Autêntica em 2025. Com 256 páginas, a obra investiga a construção histórica dos estereótipos associados à região e aos nordestinos, relacionando discursos políticos, interesses econômicos, racismo e formas de representação na literatura, no audiovisual e na imprensa.

Agora, o trabalho de Octávio está entre os três finalistas da categoria Livro-Reportagem do 48º Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos, ao lado de Agressão, de Ana Paula Araújo, e Como nasce um miliciano, de Cecilia Olliveira. A escolha do vencedor acontece em sessão pública no dia 30 de setembro, no Instituto Vladimir Herzog, em São Paulo.

Mais do que um reconhecimento literário ou jornalístico, a presença do livro na premiação cria uma conexão direta com a própria pergunta que move a investigação: quem pode falar, quem pode ser representado e quem historicamente foi colocado na posição de ser apenas objeto do olhar dos outros?

Uma história que começa antes da caricatura

Octávio conta que o incômodo inicial não estava apenas nas agressões explícitas. Estava também no modo como o Nordeste aparecia repetidamente nas narrativas produzidas sobre o Brasil.

Ele fala em “enlatamento” da região nas novelas e no jornalismo. Foi a partir desse desconforto que começou a investigar não apenas como o Nordeste era representado, mas quando e por que aquela representação havia sido construída.

“Comecei então a querer entender de onde isso vinha, quando começou e pelas mãos de quem essas ideias foram construídas.”

A pesquisa o levou a autores como Durval Muniz, Francisco de Oliveira, Manoel Correia de Andrade, Iná de Castro e Zaidan Filho. Mas havia uma questão que ainda o perseguia: compreender o contexto histórico em que aquela ideia de Nordeste foi sendo formada.

Era preciso olhar para as disputas políticas e econômicas do Brasil e também para o racismo que atravessava aquele período, inclusive as políticas de branqueamento da população.

“Eu já tinha uma base sobre a reação das nossas elites à ideia de Nordeste. Quis então entender o que veio antes dessa reação, que ações e discursos produziram essa ideia e como eles acabaram determinando quase cem anos de construção social sobre o Nordeste e a sua população.”

O resultado é uma investigação que não trata o preconceito regional como uma coleção de ofensas individuais. O livro procura enxergá-lo como parte de uma construção social mais ampla. A própria apresentação da obra descreve a investigação como uma trajetória pelos interesses políticos, econômicos e simbólicos que ajudaram a produzir a imagem do nordestino como sinônimo de atraso, miséria e ignorância.

A pesquisa também percorre diferentes formas de representação cultural e midiática. Segundo a Rádio Nacional, o levantamento realizado por Santiago reúne materiais que vão de reportagens e programas de rádio e televisão a filmes, peças de teatro e livros, acompanhando representações produzidas ao longo de décadas.

O problema não ficou no passado

Se o livro recupera a formação histórica desses estereótipos, Octávio não considera que eles tenham ficado restritos ao passado.

Para ele, houve mudanças importantes na forma como grupos historicamente marginalizados aparecem na cultura. Mas a representação do Nordeste ainda seria submetida a uma lógica própria de redução e caricatura.

“A protagonista preta na novela já não ocupa necessariamente o lugar subalterno, assim como o personagem gay já não precisa ser apenas o acessório de madame. Mas, quando a narrativa se volta para o Nordeste, ainda é frequente que a região seja enlatada, reduzida e diminuída por velhos estereótipos.”

A crítica não se limita à televisão. O autor amplia a discussão para as próprias disputas contemporâneas sobre representação.

Quem tem o direito de contar determinada história? Quem ocupa o centro? Quem permanece na periferia? O que é apresentado como nacional e o que é reduzido ao regional?

“As redes sociais, o cinema e o próprio livro fazem parte de um movimento que tensiona justamente essas fronteiras: o que é centro e o que é periferia? O que é nacional e o que é regional? Quem tem o direito de representar e quem, historicamente, foi representado pelo olhar dos outros?”

Para Santiago, é nesse deslocamento que pode estar uma possibilidade de ruptura.

“Talvez seja justamente nesse deslocamento do olhar, e na busca por outras formas de representação, que esteja a possibilidade de romper com o Nordeste que ainda insistem em nos devolver como caricatura.”

O pesquisador dentro da pesquisa

Há também uma dimensão pessoal no trabalho. Como nordestino, Octávio precisou lidar com uma questão que atravessa qualquer investigação sobre identidade: como pesquisar aquilo que também nos constitui?

Ele não acredita muito na ideia de imparcialidade, mas reconhece que precisou estabelecer uma distância entre a experiência pessoal e a construção do texto.

“Esse foi um grande desafio: me manter isento. A tal imparcialidade em que não acredito muito. Mas era preciso controlar a emoção, em alguma medida, para não deixar que ela tomasse conta do texto.”

A pesquisa, entretanto, não o deixou exatamente no mesmo lugar de onde partiu.

“A pesquisa me trouxe uma visão mais ampla, o entendimento do projeto que aconteceu com a gente e de como nós nos posicionamos diante dele.”

E produziu uma mudança que ele define de maneira menos óbvia do que uma simples afirmação de identidade regional.

“Hoje me sinto mais nordestino, não por achar que me encaixo nessa folclórica régua da nordestinidade, mas por perceber em mim essa teima de não querer mais ser definido por linhas tão engessantes.”

A frase ajuda a compreender uma das questões centrais do livro: combater o preconceito contra o Nordeste não significa substituir uma caricatura por outra, nem criar uma nova régua para dizer quem é ou não é suficientemente nordestino. Significa questionar a própria necessidade dessas classificações.

Quando o preconceito encontra a democracia

É justamente nesse ponto que a indicação ao Prêmio Vladimir Herzog ganha uma dimensão que ultrapassa o reconhecimento de uma obra.

Criado a partir de uma resolução do Congresso Brasileiro de Anistia, em 1978, o Prêmio Jornalístico Vladimir Herzog teve sua primeira edição em 1979. Desde então, reconhece trabalhos jornalísticos relacionados à defesa e promoção da democracia, da cidadania e dos direitos humanos. Atualmente, é organizado por uma comissão que reúne entidades da sociedade civil, instituições acadêmicas, organizações de direitos humanos e representantes da família Herzog.

A edição de 2026 afirma justamente o compromisso de reconhecer trabalhos que, por meio do jornalismo, defendam a Democracia, a Justiça e os Direitos Humanos.

Para Octávio, é impossível separar a investigação sobre o preconceito regional dessa dimensão.

“É um livro sobre o preconceito, sua história e suas nuances. Ao desmascará-lo, criamos condições para ajudar a enfrentá-lo. Fazer isso significa reorganizar um tabuleiro social inteiro, penso eu.”

Ele vê na própria história do Nordeste uma dimensão política dessa desigualdade de representação.

“E é aí que entram a defesa dos direitos humanos e da democracia. Em uma região onde até o direito de votar é questionado, fico feliz por poder contribuir, ainda que minimamente, para que esse dedo em riste, esse gesto de apontamento e julgamento, seja revisto.”

A afirmação ganha peso porque o prêmio que agora reconhece seu trabalho carrega uma história diretamente ligada à defesa da liberdade de expressão e à resistência à violência de Estado. Seu patrono, Vladimir Herzog, foi preso, torturado e morto nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo, em 1975. A criação do prêmio, poucos anos depois, esteve vinculada à mobilização pela Anistia e pela democracia.

Em 2026, a categoria Livro-Reportagem reúne três trabalhos finalistas. O livro de Santiago é o único dos três produzido por um autor sediado em Natal.

“Eu queria que as informações chegassem às pessoas”

Existe, no entanto, uma ambição anterior ao prêmio.Quando ainda escrevia o livro, Octávio recebeu de uma editora uma pergunta direta, afinal, o que ele queria com aquela obra? Vender? Ganhar um prêmio? Conquistar respeito acadêmico?

A resposta veio rápida. “Vender.” Não exatamente pelo dinheiro. “Não pelo retorno financeiro, acredite, mas porque eu queria que as informações do livro chegassem às pessoas.”

É talvez aí que o título Só sei que foi assim revele sua segunda camada. A expressão costuma encerrar uma conversa. Como se depois dela não houvesse mais o que perguntar. Como se determinada história estivesse dada, acabada, naturalizada.

O livro faz justamente o movimento contrário, pergunta como foi assim. Quem construiu essa imagem? Quem a repetiu? Quem se beneficiou dela? Quem foi colocado dentro dela? Quem ficou de fora? E, sobretudo, por que ela continua sendo reproduzida?

Por isso, para Octávio, o reconhecimento no Vladimir Herzog importa menos como ponto de chegada do que como possibilidade de ampliar a circulação da pesquisa. “Por isso, o que mais me alegra agora é o leitor saber que foi assim, como sugiro no título, mas que não precisa continuar sendo.”

A frase também funciona como síntese de uma investigação que começa com uma ofensa aparentemente banal, “apesar de ser do Nordeste”, e termina diante de uma questão muito maior, quem tem o poder de definir o lugar que uma população ocupa no imaginário de um país?

No caso do Nordeste, Octávio Santiago passou anos procurando as respostas. Agora, o livro que nasceu dessa investigação disputa o prêmio que leva o nome de um jornalista assassinado pela ditadura e que, há quase cinco décadas, reconhece o jornalismo como instrumento de defesa da democracia e dos direitos humanos.

E talvez seja essa a principal provocação deixada pelo livro: não basta descobrir que “foi assim”. É preciso perguntar por que foi assim, e quem ainda insiste que continue sendo.

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