
Durante décadas, dois mitos cercaram a sexualidade de adultos no espectro autista. O primeiro: todo autista não tem interesse por sexo. O segundo: todos apresentam um desejo intenso e descontrolado. A realidade é mais complexa. E mais humana.
O maior estudo já conduzido sobre o tema, na Universidade de Cambridge, ouviu mais de 2.300 adultos e revelou algo que surpreende quem ainda enxerga o autismo através de estereótipos.
A maioria dos autistas tem vida sexual ativa. Cerca de 70% dos homens e 76% das mulheres autistas relatam atividade sexual, um número menor do que os 89% observados na população neurotípica, mas suficiente para derrubar por completo a ideia de que autismo equivale à ausência de desejo.
O mesmo estudo mostrou que adultos autistas têm 7,6 vezes mais chance de se identificar como assexual do que pessoas neurotípicas. Uma diferença estatística que merece atenção clínica, não julgamento moral.
O crebro constrói o desejo
Para o neurologista Dr. Matheus Trilico, referência no atendimento de adultos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), entender essa diversidade exige olhar para além da libido. O desejo sexual depende de como o cérebro interpreta estímulos, regula emoções e processa sensações corporais. No autismo, cada uma dessas etapas pode funcionar de maneira atípica.
“O desejo envolve muito mais do que hormônios. O cérebro organiza informações, interpreta o contato físico e regula emoções. No autismo, essas características variam bastante de uma pessoa para outra”, explica o médico.
É justamente essa variabilidade que faz do conceito de espectro algo tão útil para compreender a sexualidade: não existe um padrão único, mas uma ampla gama de experiências.
Quando o toque é intenso demais
Para alguns adultos com TEA, a intimidade física se transforma em um desafio neurológico. Abraços prolongados, beijos, cheiros e determinados toques podem disparar uma disfunção sensorial que torna o contato cansativo, às vezes doloroso. Um estudo publicado no Journal of Clinical Medicine confirmou que adultos autistas de alto funcionamento apresentam maior probabilidade de disfunções sexuais em ambos os sexos, e que as peculiaridades na percepção sensorial são diretamente responsáveis por esses problemas.
Comenta o Dr. Matheus: “A recusa ao toque tem origem neurológica, não afetiva. O cérebro daquela pessoa percebe o conjunto de estímulos como intenso demais. O parceiro precisa entender isso para não interpretar a reação como rejeição. Esse descompasso gera um custo funcional real. O parceiro se sente afastado, o autista se sente incompreendido, e o relacionamento entra em um ciclo de frustração mútua que poderia ser evitado com informação adequada”.
Quando o desejo é mais intenso
Há também adultos no espectro que relatam uma busca mais frequente pela atividade sexual. Pesquisas indicam que essa vivência pode estar ligada a mecanismos de recompensa atípicos no cérebro autista, nos quais a busca por dopamina se manifesta de forma mais intensa. O neurologista ressalta que cada caso precisa ser avaliado individualmente.
“O fato de uma pessoa autista apresentar maior interesse sexual não significa que isso seja uma característica obrigatória do espectro. Pode ser uma forma de autorregulação emocional, e esse padrão precisa ser compreendido, não patologizado”, ressalta Dr Matheus.
Uma revisão sistemática recente publicada na Neuropsychiatric Disease and Treatment reforça que o funcionamento psicossexual de adultos com TEA costuma ser mais difícil do que o da população neurotípica, com maior incidência de insatisfação em relacionamentos sexuais, comportamentos de risco e vitimização. Esse cenário é especialmente grave para mulheres autistas.
O peso da inadequação
Independentemente da intensidade do desejo, o sofrimento mais comum relatado no consultório não vem da condição em si. Vem da comparação com expectativas sociais. Adultos que cresceram ouvindo que eram “distraídos demais para relacionamentos” ou “intensos demais para serem amados” carregam uma culpa que não lhes pertence.
O Dr. Trilico observa que esse peso se estende ao entorno. Segundo ele, quando um parceiro neurotípico não compreende a origem neurológica de uma recusa ao toque ou de um interesse sexual mais intenso, a relação sofre.
Um estudo qualitativo publicado no BMC Psychiatry constatou que problemas de comunicação e interação social atuam como barreiras concretas para relacionamentos afetivo-sexuais em adultos autistas, gerando sentimentos negativos e comportamentos de evitação que se reforçam mutuamente.
“O sofrimento geralmente está na comparação com aquilo que se considera normal”, reflete o neurologista. “Quando a pessoa compreende o próprio funcionamento cerebral, a culpa tende a diminuir e o autoconhecimento aumenta. Isso beneficia não só o paciente, mas todo o seu ecossistema de relacionamento”, ressalta o neurologista.
Diagnóstico como ferramenta de estratégia
Com o aumento dos diagnósticos de autismo na vida adulta, discutir sexualidade de forma responsável ganha urgência. Uma meta-análise publicada na Autism Research demonstrou que adultos autistas têm maior dificuldade em aderir a normas de privacidade e menor acesso à educação sexual adequada. Um dado que expõe uma falha sistêmica, não uma limitação individual.
Para o Dr. Matheus Trilico, o objetivo do diagnóstico na vida adulta não é rotular, mas abrir caminhos. Entender a própria neurobiologia permite que o paciente pare de lutar contra o próprio cérebro e comece a construir estratégias para viver com mais dignidade, inclusive na intimidade.
“Não existe uma forma certa de viver a sexualidade. O mais importante é que cada casal encontre um caminho baseado em respeito, comunicação e compreensão das necessidades de ambos”, conclui o neurologista.
As peças se encaixam quando você entende como seu cérebro e mente funcionam.
Sobre o especialista
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico — CRM 35805/PR | RQE 24818
- Médico formado pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA);
- Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR);
- Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR;
- Pós-graduado em Transtorno do Espectro Autista (TEA).
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