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‘DNA ferrado’ e castração: escritor autista de Diadema denuncia discriminação nas redes – 12/09/2026

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 O escritor, criador de conteúdo e ativista Wallace de Lira Cordeiro, 27 anos, de Diadema, registrou um BO (Boletim de Ocorrência) após ser alvo de um comentário nas redes sociais que defendia a castração de pessoas autistas e classificava o DNA delas como “ferrado”.

A publicação, feita por uma usuária com o nome de Luiza Fernanda, afirmava que pessoas consideradas “doentes” não deveriam procriar.

O caso ocorreu dia 6, no Instagram, onde Cordeiro mantém uma comunidade de 157 mil seguidores dedicada à conscientização sobre autismo, inclusão e direitos das pessoas com deficiência. O comentário foi posteriormente excluído e o perfil responsável pela publicação deixou de ser localizado na plataforma.

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Segundo o criador, ele estava em casa com familiares quando viu o comentário. “A primeira reação que tive foi de choque. Fiquei meio trêmulo, com tremores pelo corpo, porque comecei a ficar muito ansioso e com raiva também, obviamente.”

A mensagem não foi interpretada como uma “simples” ofensa. Na avaliação dele, o conteúdo ultrapassou os limites de um ataque pessoal ao defender a retirada de direitos e a esterilização de um grupo de pessoas em razão de sua condição. “Ela pregou uma forma de eugenia, de exterminação de autistas.”

Cordeiro conta que teve dificuldades para retornar à rotina nas redes sociais. Segundo ele, a repercussão provocou episódios de ansiedade e receio de voltar a produzir conteúdo.

O diademense explica ainda que já havia recebido outras ofensas capacitistas ao longo dos anos em que produz conteúdo, mas nunca tinha se deparado com uma manifestação semelhante. “Já esperava que viessem ataques, mas não uma atrocidade dessa. Com quatro anos trabalhando na internet, nunca tinha presenciado isso. Ouvir que teria que ser castrado. Nenhum animal merece isso. Mas me senti como se ela estivesse me tratando como um bicho qualquer, como alguém que tivesse que estar enjaulado, que não pudesse ter uma vida comum.”

Para o criador de conteúdo, o ataque também reforçou uma preocupação antiga sobre a forma como pessoas autistas são enxergadas socialmente. “Sentia que, independentemente do que fizesse ou das qualidades que tivesse, as pessoas sempre enxergariam apenas minhas limitações e minha deficiência. Era como se nada de bom que eu fizesse tivesse importância.”

O caso ganhou repercussão entre os seguidores de Cordeiro, que passaram a enviar mensagens de apoio e acompanhar o andamento do registro policial. Ele conta que decidiu levar a situação às autoridades porque não queria que manifestações desse tipo fossem naturalizadas na internet.

“Se eu me calar perante isso, as pessoas vão achar que é normal comentar esse tipo de coisa. Sendo que não é. Porque a internet não é terra de ninguém. Não é uma terra sem lei.”

Mesmo depois do impacto inicial, ele decidiu continuar produzindo conteúdo. “As pessoas confiam em mim, as pessoas querem que eu fale, querem me ouvir, mas esse comentário vai me marcar pelo resto da vida, eu sei disso.”

Questionada, a SSP (Secretaria da Segurança Pública) informou que a Polícia Civil investiga uma denúncia de injúria publicada em uma rede social. “O caso foi registrado pela Delegacia Digital e encaminhado ao 1º DP (Distrito Policial) de Diadema, responsável por realizar diligências para identificar a autoria e esclarecer os fatos”, ressaltou a Pasta.

Agora, Cordeiro busca orientação jurídica para entender os próximos passos do caso e acompanhar a investigação. Segundo a Lei nº 14.532/2023, o crime de injúria pode resultar em pena de detenção de três meses a um ano, além de multa e da pena correspondente à violência, quando aplicável.

ATIVISMO

Autista e estudante de Psicologia, o escritor começou a produzir conteúdo sobre o tema após receber o diagnóstico, aos 21 anos. A ideia inicial, segundo ele, era compartilhar experiências pessoais e falar sobre as dificuldades relacionadas à comunicação, socialização e às próprias vivências como pessoa autista.

A produção, iniciada em 2022, cresceu e passou a alcançar milhares de pessoas. Vieram convites para palestras, eventos e ações de conscientização em diferentes partes do País.

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