Na noite de 15 de outubro, telas se conectaram de diferentes cantos do país numa mesma sintonia de memória e compromisso profético. A Comissão Especial para o Enfrentamento ao Tráfico Humano (CEETH), da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), realizou um encontro virtual para marcar uma década de caminhada sob o lema: “10 anos rompendo o silêncio: Tráfico de pessoas existe e enfrentá-lo é a nossa missão”.
Mais do que recordar a caminhada institucional, o momento reafirmou a coragem profética e a missão eclesial. Com a participação de bispos, religiosas, leigos, leigas e agentes de pastoral recordando os rostos, histórias e pegadas de uma mobilização firme contra a mercantilização humana, a Comissão abriu o ciclo celebrativo dessa trajetória.
“São dez anos de uma caminhada feita por muitas mãos, muitos rostos, muitas organizações, comunidades e pessoas que acreditaram, e continuam acreditando, que nenhuma vida humana pode ser transformada em mercadoria. Hoje não queremos apenas recordar datas. Queremos recordar pessoas. Queremos agradecer. Queremos rezar. E queremos renovar nosso compromisso com a vida e com a liberdade”, destacou no momento celebrativo a irmã Rose Bertoldo que integra a Comissão.
Ao iniciar a cerimônia, o presidente da Comissão, dom Adilson Pedro Busin, expressou sua gratidão ao Grupo de Trabalho. Ao avaliar o percurso percorrido e os laços consolidados, sublinhou:
“Que bom que estamos no barco; tem gente aqui que é marinheiro da primeira hora, e nós estamos remando, muitas vezes, contra a corrente do tráfico de pessoas”.
Dom Adilson evocou, comovido, a partida de duas referências fundamentais na gênese do trabalho: a defensora de direitos humanos Henriqueta Cavalcante, em janeiro deste ano, e dom Enemésio Ângelo Lazzaris, bispo falecido em 2020.
“Dom Enemésio era muito singelo nas suas colocações e muito atento. Ele e a sua maletinha preta, seus vários caderninhos de anotação, andava para lá e para cá com aquela maleta, mas muito atento, enfrentando as injustiças sociais para que as pessoas, as famílias, os agricultores e agricultoras pudessem ter justiça, paz e dignidade humana”, lembrou Francisco Alan, integrante da Comissão.
De forma igualmente marcante, o legado de Henriqueta Cavalcante foi reverenciado pela sua coragem e escuta vigilante: “Muitas mulheres e homens, defensores e defensoras de direitos humanos, aprenderam com a Henriqueta o exercício da escuta. Uma escuta que era de denúncia, de ação, pautada no anúncio e também centrada na indignação”, ressaltou Alan, lembrando a proximidade de convivência e a atuação incisiva de Henriqueta na proteção a meninas e mulheres no arquipélago do Marajó. O resgate histórico recordou também a dedicação profética de dom José Luiz Azcona no Marajó (PA).
Entre as presenças e memórias marcantes que estruturaram os primeiros mutirões de enfrentamento, foram destacadas a atuação de irmã Claudina Scapini (presente na cerimônia), irmã Rosita Milesi, padre Ari (da Pastoral Afro), frei Xavier Plassat (Comissão Pastoral da Terra – CPT), Alessandra Miranda e dom Plínio José Luz da Silva, bispo de Picos (PI) e bispo referencial da Comissão.

Prevenção, acolhimento e a inspiração de Santa Bakhita
Ao avaliar essa década de caminhada e apontar os passos necessários para o presente e o futuro, a secretária executiva da Comissão, Alessandra Miranda, destacou dois eixos fundamentais que sustentam a ação pastoral: a formação de base e a espiritualidade encarnada.
“São dez anos de atuação em defesa da vida, sobretudo das pessoas mais vulneráveis e que são as maiores vítimas do tráfico humano. A meu ver, dois elementos marcam profundamente essa trajetória. O primeiro é a formação e capacitação de lideranças, para que multipliquem materiais e conteúdos voltados à prevenção, aprofundando a compreensão sobre o que é o tráfico e suas diversas modalidades. Assim, cada pessoa torna-se um agente transformador, vigilante na defesa da vida. O segundo é Santa Bakhita, que perpassa todo o nosso caminho eclesial. Ela própria foi vítima do tráfico e nos traz uma profunda inspiração no seguimento de Jesus e do Evangelho, sobretudo pela perseverança, resistência e pelo simbolismo de sua história”, pontuou Alessandra.
Para a secretária executiva, a missão da Igreja exige uma postura ativa e integral diante das violações:
“É missão da Igreja abrir todas as portas para que o tráfico humano seja banido da sociedade. Mas, para isso, precisamos prevenir, identificar e acolher. São esses elementos fortes que mobilizaram estes dez anos e que continuarão nos mobilizando por um bom período pela frente”.

Missões, desafios e luz da esperança no horizonte
O percurso da Comissão, impulsionado pela Campanha da Fraternidade de 2014, integrou esforços com a Rede Um Grito Pela Vida, pastorais e organismos que caminham lado a lado em frentes territoriais por todo o país. Entre as iniciativas, destacam-se as missões realizadas em Roraima, no Regional Norte 1 da CNBB: a primeira em 2018, no ápice do fluxo migratório, quando 40% da Coleta Nacional da Solidariedade foi destinada para estruturar a Cáritas local; e a segunda em 2024, que constatou a persistência e a gravidade das denúncias de tráfico no território.
Os participantes enfatizaram ainda que a Comissão manteve suas atividades ininterruptas durante a pandemia de Covid-19 e alertaram para a urgência de encarar o aliciamento no meio digital como um dos maiores desafios contemporâneos da inteligência e da prevenção pastoral.
A dimensão orante fez-se ecoar a partir da Carta aos Gálatas (5, 1): “É para a liberdade que Cristo nos libertou”. Dom Evaristo Spengler convidou todos a acenderem velas diante das câmeras, afirmando:
“A vela nos recorda o Cristo ressuscitado, a luz de Deus que ilumina os nossos caminhos, não nos deixa na escuridão das trevas, mas nos ilumina com o seu amor. Rezemos celebrando hoje dez anos e celebrando o horizonte que nos espera, porque nenhuma vida é mercadoria, toda vida tem dignidade, toda pessoa nasceu para ser livre”.
Sob a intercessão de Santa Josefina Bakhita, reiterou-se o compromisso de que nenhuma opressão encontre indiferença na Igreja.
Continuidade das celebrações
O encontro virtual marcou a abertura de uma agenda comemorativa e formativa que se estenderá até o primeiro semestre de 2027. A Comissão já disponibilizou subsídios litúrgicos com a oração dos fiéis para celebrações comunitárias, além da nova identidade visual sintetizada pelo lema: “10 anos rompendo o silêncio: Tráfico de pessoas existe e enfrentá-lo é a nossa missão”.
Até o final deste ano, novos materiais e vídeos de resgate histórico circularão nos meios digitais, preparando o caminho para uma série de debates e transmissões ao vivo ao longo de 2027 com foco nas particularidades regionais do país, fortalecendo as redes de denúncia e a incidência em políticas públicas.
Por Cláudia Pereira | Cepast CNBB
