Carolina Nobre,autista nível 2 de suporte, fez crochê para pagar Medicina e foi aprovada em 1º lugar Foto: @autistando_/Reprodução/ND MaisCarolina Nobre precisou transformar desafios em caminhos para realizar um sonho. Diagnosticada com autismo nível 2 de suporte, ela conta que enfrentou desde a infância dificuldades de socialização, seletividade alimentar, rigidez, agressividade e fala estereotipada. Hoje, a jovem é estudante de Medicina, criadora de conteúdo sobre Transtorno do Espectro Autista (TEA) e tem como objetivo se tornar neuropediatra.
A história começou em uma família distante do ambiente universitário. O pai de Carolina trabalhava na roça e nunca frequentou uma universidade. A mãe foi agente comunitária de saúde. Segundo Carolina, por muito tempo ela acreditou que seu destino poderia ser semelhante ao dos pais.
Foi então que o crochê entrou na história.
Para ajudar a financiar os estudos e aproximar-se do sonho de cursar Medicina, Carolina passou a produzir peças artesanais, entre elas sousplats de crochê. O trabalho se transformou em uma forma de custear a trajetória acadêmica e, ao mesmo tempo, em símbolo da persistência que marcou sua caminhada.
920 pontos no Enem e quatro aprovações em Medicina
A dedicação aos estudos trouxe um resultado que mudou a trajetória de Carolina. Ela alcançou 920 pontos no Enem e foi aprovada em quatro universidades federais.
Em uma delas, a Universidade Federal de Jataí (UFJ), em Goiás, conquistou o primeiro lugar em Medicina. Apesar da aprovação, decidiu seguir os estudos na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Do crochê à Medicina: jovem autista supera desafios e conquista primeiro lugar em universidade federalFoto: @autistando_/Reprodução/ND MaisA conquista ganhou um significado ainda maior para Carolina por causa da relação com os pais.
“Eu não abraço meus pais, mas estudo por eles”, afirma ao contar como transforma a própria trajetória em uma forma de homenagear a família.
Sonho de ser neuropediatra
A escolha pela Medicina também está diretamente ligada à experiência pessoal de Carolina com o autismo. Ela pretende se especializar em neurologia pediátrica e trabalhar justamente com crianças e adolescentes que, assim como ela, estão dentro do espectro.
A intenção é ajudar famílias a compreender melhor o TEA e contribuir para que pessoas autistas tenham acesso a diagnóstico, tratamento e oportunidades.
Autista nível 2 de suporte ela faz crochê para pagar Medicina Foto: @autistando_/Reprodução/ND MaisDurante a faculdade, Carolina também buscou experiências fora do Brasil. No último ano do curso, realizou estágio internacional em Portugal e em Madri, na Espanha, com experiência na área de neurocirurgia.
Palestra para mais de 3 mil pessoas
A trajetória acadêmica também abriu espaço para Carolina compartilhar conhecimento sobre autismo. Em uma de suas palestras, intitulada “Fenótipo Feminino do Transtorno do Espectro do Autismo”, ela falou para um público de mais de 3 mil pessoas.
O tema tem relação direta com sua própria experiência. Carolina utiliza sua vivência para discutir características do autismo em mulheres e questões relacionadas ao diagnóstico e à compreensão do transtorno.
Carolina Nobre transforma sonho em missão Foto: @autistando_/Reprodução/ND MaisUm milhão de seguidores falando sobre autismo
Além da Medicina, Carolina encontrou nas redes sociais outra forma de transformar sua experiência em informação.
No perfil @autizando_, ela compartilha a rotina, fala sobre autismo, explica características do TEA e incentiva outras pessoas que estão dentro do espectro e suas famílias. O perfil já reúne cerca de 1 milhão de seguidores.
Carolina também criou o Instituto Carolina Nobre, ampliando o trabalho de informação e conscientização sobre o autismo.
Entre o crochê usado para ajudar a pagar os estudos, as aprovações em universidades federais e a rotina na Medicina, a história de Carolina ganhou um propósito maior: transformar as dificuldades que enfrentou em conhecimento e oportunidade para outras pessoas.
O sonho agora é concluir a formação, tornar-se neuropediatra e usar a Medicina para ajudar a transformar a vida de crianças autistas e suas famílias.
O que é o autismo e quais são os sinais de alerta?
Segundo o Ministério da Saúde, o Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do desenvolvimento cerebral que pode afetar a comunicação, a interação social e o comportamento. O termo “espectro” representa justamente a diversidade de manifestações do autismo: cada pessoa pode apresentar características, necessidades de suporte e trajetórias diferentes.
A identificação precoce é importante para que a criança tenha acesso às intervenções e aos apoios necessários. Entre os sinais de alerta estão a ausência ou dificuldade de contato visual, não responder ao próprio nome, atraso ou regressão da fala, pouco interesse em interações sociais, comportamentos repetitivos, resistência a mudanças na rotina e alterações na sensibilidade a sons, luzes e texturas.
Esses sinais, isoladamente, não significam que a criança tenha autismo, mas indicam a necessidade de uma avaliação multiprofissional.
