Aos 42 anos, após uma infância marcada pelo bullying e enfrentar um quadro de depressão já na vida adulta, Gizele Rocha Aguiar Baião de Lima encontrou uma explicação para experiências que a acompanharam durante décadas. Uma avaliação neuropsicológica levou ao diagnóstico tardio de Transtorno do Espectro Autista (TEA), além de TDAH e altas habilidades. Parte dessa trajetória foi transformada no livro Raízes do Autismo – Pé de Mamão Não Dá Limão, que será lançado nesta quinta-feira (20), em Manaus.
Fisioterapeuta, educadora física, escritora e palestrante, Gizele conta que situações vividas desde a infância passaram a ganhar outro significado após o diagnóstico.
“Como eu sofri muito bullying na infância, e na época eu não tinha noção do que era o bullying, acho que isso ficou guardado, alguma caixa-preta em mim. […] É como se eu me desconectasse para me proteger. Essa é a minha percepção hoje, depois de muito autoconhecimento”, contou à reportagem de A CRÍTICA.
Diagnóstico tardio
A descoberta aconteceu durante um período de depressão iniciado quando cursava mestrado. Segundo Gizele, após procurar ajuda profissional, psiquiatras recomendaram uma avaliação neuropsicológica.
“Foi uma virada de chave para o melhor. O diagnóstico, realmente, para mim, representou uma libertação de existência na Terra. Parece uma coisa meio dramática, mas estou sendo bem sincera”, afirma.
‘Autismo pelo avesso’
A experiência pessoal se juntou aos relatos que Gizele acompanhou durante 11 anos de atuação no Centro de Bem-Estar e Desenvolvimento Humano Casa Vida, em Teresópolis, no Rio de Janeiro, idealizado por ela.
Segundo a escritora, o contato com crianças neurodivergentes e suas famílias revelou experiências recorrentes de sofrimento e sensação de invisibilidade. Após receber o próprio diagnóstico, ela passou a compreender de outra maneira inclusive a facilidade que sentia para se comunicar com algumas dessas crianças.
“A escuta dessas famílias era muito similar: o sofrimento, as dores, a invisibilidade do que elas sentiam. Quando eu fiz 42 anos, descobri que era autista. E aí tudo fez sentido”, conta.
Lançamento do livro
As experiências acumuladas ao longo dos anos deram origem ao livro. Gizele afirma que a escrita ocorreu rapidamente e funcionou como uma espécie de desabafo. O manuscrito inicial ultrapassou 400 páginas e acabou dividido em duas partes.
“Eu queria colocar o autismo pelo avesso, mostrar o que está dentro do casaco do autismo, as costuras que ninguém vê, as coisas do autismo que ninguém vê, que ninguém fala. Queria mostrar aquilo que estava vendo nos bastidores dessas famílias, dessas crianças, dos tratamentos e também da própria vida”, explica.
O título Raízes do Autismo – Pé de Mamão Não Dá Limão também remete ao papel que a autora atribui à família no processo de acolhimento após o diagnóstico.
Para ela, informação e compreensão são importantes para impedir que crianças neurodivergentes cresçam acreditando que suas diferenças representam algum tipo de defeito.
“É chegar para a criança e falar: ‘Você não veio errado. […] Eu te vejo, vou ter paciência com você, vou te escutar, vou validar sua sensibilidade’. Acho que isso aumentaria muito a compreensão e a aceitação do diferente, começando dentro de casa e chegando às escolas e à sociedade”, afirma.
Cerimônia de posse
Além do lançamento do livro, Gizele tomará posse nesta quinta-feira como nova imortal da Academia de Literatura, Arte e Cultura da Amazônia (ALACA), ocupando a cadeira 431.
A escritora, que passou parte da adolescência em Manaus, afirma que a entrada na instituição ganha significado também pela possibilidade de ampliar a visibilidade das pessoas neurodivergentes.
“Quando olho para a minha trajetória, para o diagnóstico tardio, para tudo o que vivi, estudei e transformei em propósito, percebo que ocupar esse espaço também significa representar muitas pessoas que ainda estão buscando ser compreendidas e reconhecidas”, destaca.
A cerimônia de posse e o lançamento de Raízes do Autismo – Pé de Mamão Não Dá Limão serão realizados às 9h desta quinta-feira (20), no Auditório Cônego Azevedo, na Assembleia Legislativa do Estado do Amazonas (Aleam). A programação é gratuita.
