É a convição de David Ucama, perito em Direito administrativo, Direito ambiental e Direito penal, e Docente na Universidade Católica de Moçambique (UCM) – Extensão de Maputo, em recentes depoimentos à Rádio Vaticano e comentando a Carta Encíclica do Papa Leão XIV Magnifica Humanitas (MH).
P. Bernardo Suate – Cidade do Vaticano
Da Magnifica Humanitas do Papa Leão XIV, David Ucama destaca particolarmente três aspectos fundamentais e que vão ao encontro dos maiores desafios dos nossos dias: foco na dignidade da pessoa humana e não apenas nos interesses de poucos, o alerta tecnológico do Papa sobretudo contra o uso de algoritmos que ampliam injustiças, exclusões e substituem decisões humanas sensíveis, e o apelo à paz.
Muitas pessoas ainda não têm acesso à tecnologia de ponta
Em Moçambique, reconhece o Professor David Ucama, muitas pessoas e Comunidades ainda não têm acesso às tecnologias de ponta nem aos principais meios de IA, e “estas classes vão ser forçadas a saltar etapas”, em situações em que lhes sejam impostas máquinas que exigem tecnologias avançadas. Daí, a importância do apelo do Papa Leão para que as tecnologias sirvam a dignidade humana e o interesse de toda a humanidade, e não de poucos indivíduos”.
O Papa destaca igualmente que a tecnologia não é moralmente neutra e critica o uso de algoritmos que ampliam injustiças, exclusões e também substituem decisões humanas sensíveis, enfatiza David Ucama citando particularmente casos da medicina, direito ao trabalho “onde nós, Moçambicanos, ainda estamos a precisar e ainda estamos vocacionados a um trabalho braçal, ainda precisamos de médicos para cuidarem de nós”.
É fundamental, pois, salvaguardar por um lado tudo quanto se deve fazer para salvar a vida de outrem e, por outro, também aquilo que temos que fazer nós como humanos, para trabalhar e termos acesso ao direito do trabalho, sem que as maquinarias substituam o trabalho humano.
Promover diálogo e justiça social sem esquecer questão ambiental
Ucama sublinha, enfim, o apelo do Papa Leão à paz, alertando, sobretudo, contra o uso de sistemas de armas autónomas promovendo, em vez disso, o diálogo e a justiça social. Enfim, “a IA não deve ser usada para promover problemas, desmandos, ou interferências na vida privada, sob o risco de provocar guerras e conflitos”, remata o professor, sem esquecer a questão ambiental que bem lhe está a peito: “de facto, quem vai cuidar do nosso planeta, do ar, das águas, quem vai criar um sistema de prevenir os graves problemas ambientais (cheias, secas, degradação dos solos, a fome …), se nós não o fizermos?
Portanto, para David Ucama, a Magnifica Humanitas de Leão XIV está a chamar-nos a um uso adequado das tecnologias digitais e da IA (já que é praticamente impossível travar com as māos o seu uso), e nos alerta do risco “de um dia ficarmos sem comida, sem trabalho e sem alguém que trabalhe para nós, coisas essenciais para o ser humano”.
Um documento que sai da Igreja, sim, mas que não é apenas da Igreja, pois serve toda a humanidade, um “documento a divulgar com todos os meios à disposição: com sessões.e encontros de sensibilização, através da Rádio e TV, dos académicos através de artigos científicos, e também das empresas que, por vezes, podem produzir tecnologias que prejudicam a criança e a pessoa humana em geral”, disse David Ucama a terminar.


