Aos 85 anos, Navi Pillay passa a integrar o seleto grupo das 144 personalidades agraciadas com o Nobel da Paz em 125 anos do Prêmio. O Comitê Nobel Norueguês afirmou que a juíza sul-africana demonstrou “coragem e integridade excepcionais” ao liderar o caminho rumo a uma “ordem jurídica global mais abrangente”. “A laureada deste ano desempenhou papel fundamental na garantia de que crimes de guerra, crimes contra a humanidade e genocídio sejam processados”, afirmou o comitê. “Ela ampliou significativamente o alcance e o impacto do direito internacional. Atuou como juíza da Suprema Corte da África do Sul, no Tribunal Penal Internacional para Ruanda e no Tribunal Penal Internacional. Foi Alta Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos e, até recentemente, presidiu a Comissão Internacional Independente de Inquérito da ONU sobre o Território Palestino Ocupado”, acrescentou. Pillay chegou a usar o termo “genocídio” para se referir ao massacre de palestinos na Faixa de Gaza pelas forças israelenses.
Poucas horas depois do anúncio do Nobel da Paz, os EUA reagiram ao Nobel com novas sanções ao Tribunal Penal Internacional (TPI), enquanto o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, acusou Pillay de ser “sectária contra os judeus”. “Agora que o Comitê Nobel premiou a maior mentira do século 21, Joseph Goebbels sem dúvida estará aplaudindo do inferno”, publicou o Ministério das Relações Exteriores israelenses, ao citar o ministro da Propaganda da Alemanha nazista. “Ou o TPI põe fim a suas ameaças ou nós poremos fim ao TPI”, avisou o secretário de Estado americano, Marco Rubio, que qualificou o órgão judicial de “desonesto”. “Vamos proibir transações com esse tribunal desonesto, cortando seus recursos e paralisando sua capacidade de operar”, acrescentou, sem citar Pillay e o Nobel.
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Volker Turk, alto comissário da ONU para os Direitos Humanos considerou “inaceitáveis” as sanções. “Estas sanções — as mais recentes de uma série de medidas de retaliação contra o TPI e sua equipe pelo trabalho que realizam diariamente para promover a responsabilização pelas violações mais graves dos direitos humanos — são inaceitáveis”, sublinhou, por meio de um comunicado.
Pillay estava em Nuremberg (sul da Alemanha), quando soube que tinha sido escolhida para receber o Nobel da Paz. Ela participava de um evento sobre justiça e reparação na Sala 600 do Palácio de Justiça de Nuremberg, o mesmo local onde nazistas foram julgados por crimes de guerra. “Quando o diretor da Academia Internacional dos Princípios de Nuremberg, Christoph Safferling, pediu que eu saísse da sala — e vi sua expressão tão séria —, pensei que ele tivesse alguma notícia ruim para mim. Foi então que ele me contou o que tinha acabado de acontecer. Fiquei olhando, incrédula. Não consegui acreditar. Aos poucos, fui recebendo outros alertas da mídia e assisti ao anúncio. Só então a ficha caiu. Sinto-me profundamente honrada e comovida”, declarou, durante entrevista ao Comitê Nobel Norueguês. Ao ser informada sobre a honraria, ela foi ovacionada pelas pessoas presentes no evento. “Se vocês aplaudirem um pouco mais, talvez eu divida esse prêmio com (Donald) Trump”, brincou.
O presidente do Comitê Nobel, Jørgen Watne Frydnes, mostra um celular exibindo uma foto de Pillay, em Oslo
(foto: Javad Parsa/NTB/AFP)
Reitor da Faculdade de Direito da Universidade de Kwazulu-Natal, em Durban (África do Sul) e pesquisador do Grupo de Pesquisa Navi Pillay, Freddy Mnyongani disse ao Correio que a juíza sul-africana “tem sido pioneira em muitos aspectos”. “Seu trabalho e suas contribuições para a sociedade — particularmente no avanço dos direitos humanos e da justiça social — são amplamente respeitados. Esta honraria de prestígio reconhece um legado notável de serviços prestados e a coloca entre os sul-africanos ilustres que receberam o Prêmio Nobel, incluindo o chefe Albert Luthuli, o arcebispo emérito Desmond Tutu e Nelson Mandela”, afirmou.
“Compassiva e justa”
Ajith Sunghay, representante do Escritório das Nações Unidas do Alto Comissariado para Direitos Humanos nos Territórios Ocupados, foi apresentado a Pillay em 2008. “Eu trabalhava em Jerusalém e ela era alta comissária. Depois disso, trabalhei com ela em vários países da Ásia, como o Sri Lanka, que era afetado por uma guerra civil. Pillay é uma pessoa muito compassiva, bastante centrada e orientada nas vítimas. Ela não esboça timidez para fazer declarações muito poderosas. Também mostra-se muito justa, e acho que isso vem da natureza pelo fato de ser juíza. Ela se baseia em fatos para tirar suas conclusões”, explicou ao Correio, por telefone.
De acordo com Sunghay, essa característica foi marcante em seus papéis como alta comissária para os direitos humanos e como chefe do inquérito sobre os crimes cometidos na Faixa de Gaza. “Ela se foca em fortes análises e nos fatos. Pillay também demonstrou uma posição contundente em relação à causa palestina. Tanto que descreveu o que acontece na Faixa de Gaza como ‘genocídio’. Pouco depois de saber que ganhou o Nobel, ela utilizou esse termo novamente. O Nobel da Paz trará muita atenção para a situação na Palestina”, disse.
EU ACHO…
Ajith Sunghay, representante do Escritório das Nações Unidas do Alto Comissariado para Direitos Humanos nos Territórios Ocupados
(foto: Arquivo pessoal )
“Navi Pillay presta muita atenção na justiça, na responsabilização pelos crimes e nos direitos humanos de uma forma mais ampla, dentro do escopo do direito internacional. Além da causa palestina, no atual cenário, em que o direito internacional tem sido minado e o sistema multilateral tem sido desmantelado, esse Nobel da Paz significa muito. Ele devolve o foco, a atenção e a importância à ordem mundial pós-Segunda Guerra.”
AJITH SUNGHAY, representante do Escritório das Nações Unidas do Alto Comissariado para Direitos Humanos nos Territórios Ocupados
OS ÚLTIMOS AGRACIADOS
Veja a lista dos mais recentes ganhadores do Nobel da Paz
2025: María Corina Machado, líder opositora da Venezuela
2024: Nihon Hidankyo, organizações de sobreviventes da bomba de Hiroshima
2023: Narges Mohammadi, ativista e prisioneira política iraniana
2022: Ales Bialiatski, ativista pró-democracia de Belarus; Memorial, ONG russa pró-direitos humanos; e Centro pelas Liberdades Civis, ONG ucraniana
2021: Maria Ressa, jornalista filipina; Dmitry Muratov, jornalista russo
2020: Programa Mundial de Alimentos da ONU
2019: Abiy Ahmed Ali, premiê da Etiópia
2018: Denis Mukwege, médico ginecologista congolês; Nadia Murad, ativista da minoria yazidi
2017: Campanha Internacional para a Abolição de Armas Nucleares
2016: Juan Manuel Santos, presidente da Colômbia
