Teve alguns endereços a escolha da jurista sul-africana Navi Pillay para o Nobel da Paz. O Comitê Norueguês decidiu premiar um nome que personifica, de certa maneira, o sistema multilateral. Em particular, o Tribunal Penal Internacional (TPI), que julga governantes e outras autoridades de Estado acusadas de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. Além de ter sido a Alta Comissárias das Nações Unidas para Direitos Humanos, a laureada presidiu o tribunal especial para a chacina étnica em Ruanda e, mais recentemente, esteve à frente do comitê da ONU que acusou Israel de cometer genocídio contra os palestinos na Faixa de Gaza.
A premiação, de saída, manda recado para Donald Trump, que vem de renovar sanções unilaterais contra o TPI, ao qual os Estados Unidos se recusam a aderir. Outro destinatário é o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, objeto de mandado internacional de prisão por parte do tribunal.
Fique por dentro das notícias que importam para você!
Acima de tudo, porém, o Comitê do Nobel fez uma escolha clara pelo sistema multilateral, consubstanciado na ONU e seus braços em distintas áreas. Ao premiar a jurista sul-africana, reconhece o trabalho de instituições que colocam em vigência o direito internacional, em um mundo onde potências militares seguem impondo — ou tentando impor — pela força agendas próprias, à revelia da comunidade das nações.
Navi Pillay recebe o Nobel da Paz, também, em alguma medida, em nome das mulheres. Foi a primeira a presidir a Corte Suprema da África do Sul, com papel decisivo na transição do regime segregacionsita do apartheid para a democracia racial.
Em todas as dimensões pelas quais se analise, a premiação anunciada ontem estabelece marcos. Principalmente na reafirmação de apoio e reconhecimento ao sistema de relações e organismos que a comunidade internacional se esforça por estabelecer desde a Segunda Guerra Mundial. Sobre as ruínas da Europa devastada, de Hiroshima e Nagasaki arrasadas pelo bombardeio atômico dos Estados Unidos — os primeiros e, até hoje, os únicos da história —, uma obra de oito décadas segue em andamento. Como foi dito e repetido, nas últimas semanas, durante a Assembleia-Geral, a ONU vive talvez seu momento mais difícil.
O Nobel da Paz para Navi Pillay premia o mundo, de certa maneira, pela persistência, pela perseverança em seguir vivendo e buscando a harmonia possível. Não funciona, por si, como algum tipo de passe de mágica ou varinha de condão, como nos contos de fada, por mais que a realidade atirada diariamente aos nossos olhos, pelos noticiários, nos convide a imaginar soluções instantâneas. Mas reanima, realimenta a coragem.
Há de ser no reconhecimento de personalidades como a jurista sul-africana que encontraremos inspiração e coragem para não desistir. Para persistir, em nome das gerações que amadurecem em um mundo imerso em desafios de toda ordem. Aos 85 anos, Navi Pillay há de luzir como esperança para milhões de jovens. Ao menos por um dia.
