A falta de acesso a absorventes, a ausência de saneamento básico e o silenciamento sobre a menstruação configuram uma forma estrutural de violência de gênero no Brasil. Essa é a síntese para a criação do Almanaque Saúde Menstrual da Girl Up Brasil, lançado na última quinta-feira (29).
Em entrevista ao É de Manhã, da Rádio Brasil de Fato, Munar Malek, gerente de projetos da organização, defende que a pauta precisa ultrapassar a noção tradicional de pobreza menstrual para alcançar o conceito amplo de dignidade. Segundo Malek, o conceito foi estruturado a partir da escuta de quase 200 jovens ativistas do país. “A violência menstrual é uma violência de gênero que está conectada com a menstruação. Quando o horizonte que a gente tem é o da dignidade menstrual e ele não é cumprido, nós estamos diante de uma violência e de uma violação de direitos, se a gente compreende o menstruar enquanto direito humano”, explica.
Além do desabastecimento de insumos higiênicos, o problema se manifesta na negligência médica e na desconsideração de dores crônicas ou incapacitantes, como as causadas pela endometriose, que chegam a afastar meninas das salas de aula. O desinteresse histórico em investigar a dor feminina perpetua estigmas e atrasa diagnósticos.
“As dores das mulheres não foram desconsideradas ao longo da história. Muito pelo contrário, elas foram consideradas histeria, loucura, exagero. A gente tem dois polos muito opostos, que são da desconsideração da dor enquanto algo legítimo e da consideração da dor enquanto algo ligado a um corpo feminino histérico, no sentido de um corpo que inventa dores”, avalia Malek.
Para romper com o isolamento provocado pelo tabu, a Girl Up aposta na educação e na informação qualificada para adolescentes, famílias e educadores. “Combater o tabu menstrual é primordial para a gente avançar nas discussões que nós temos sobre o menstruar”, destaca.
A estratégia de conscientização também ocupa os espaços públicos com ações lúdicas voltadas às infâncias, incluindo o lançamento da mascote Maria Menarquinha, na avenida Paulista, em São Paulo (SP). A personagem utiliza metáforas simples, como o derretimento do gelo e a metamorfose da borboleta, para introduzir a menstruação como um processo natural de transformação do corpo sem assustar as crianças.
“A gente procura criar autonomia no sentido de possibilitar essas conversas a partir da linguagem infantil e combater as surpresas e as violências que vêm quando a menstruação não é conversada desde o começo”, argumenta.
Para ouvir e assistir
O É de Manhã vai ao ar de segunda a sexta-feira, às 7h da manhã, na Rádio Brasil de Fato, 98.9 FM, na Grande São Paulo, com transmissão simultânea também pelo YouTube do Brasil de Fato.
