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relatórios expõem a Operação Contenção

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Um ano após a Operação Contenção deixar 122 mortos nos complexos do Alemão e da Penha, na zona norte do Rio de Janeiro, investigações independentes revelam um padrão sistêmico de sabotagem de câmeras corporais, sessões de tortura e fortes indícios de execuções. A ação, deflagrada em 28 de outubro de 2025, é a mais letal da história brasileira e segue sem responsabilização criminal pelas mortes.

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Relatórios elaborados pela organização Human Rights Watch (HRW) e pela Defensoria Pública do Estado, em parceria com o Projeto Mirante da Universidade Federal Fluminense (UFF), consolidam evidências de que o massacre teve características de uma operação de vingança.

O estopim para a alta letalidade, segundo as análises, foi a morte de policiais nas primeiras horas da incursão na Vila Cruzeiro. A partir do meio-dia, o foco das mortes civis se transferiu para a área de mata conhecida como Vacaria, onde agentes do Batalhão de Operações Especiais (Bope) encurralaram dezenas de suspeitos no episódio que ficou conhecido como “muro do Bope“.

A HRW detalha a dinâmica: “Quatorze policiais foram baleados e hospitalizados naquele dia, de acordo com documentos da investigação e registros hospitalares, sendo que todos, exceto um, foram internados até as 13h30. Quatro policiais morreram, e mais um viria a falecer nas semanas seguintes”.

Apagão intencional e letalidade

O dado mais expressivo das investigações é a ausência de registros visuais. Das 122 mortes, nenhuma foi captada pelas câmeras corporais (COPs) dos mais de 2,5 mil agentes envolvidos.

Houve um apagão generalizado e deliberado dos equipamentos, especialmente pouco antes de o Bope formar o cerco na mata. Relatórios apontam câmeras viradas para paredes, retiradas dos uniformes, obstruídas intencionalmente com as mãos ou desligadas sob o pretexto de falta de bateria. Pelo menos duas câmeras operavam sob o mesmo registro de identidade em locais diferentes.

O Bope concentrou 86,6% dos quase 14 mil disparos efetuados por unidades especiais da Polícia Militar. Entre os 50 policiais do batalhão que mais atiraram, apenas oito portavam câmeras, e as imagens de apenas dois foram entregues, encerrando-se antes mesmo da chegada às favelas.

Na mata da Vacaria, suspeitos tentaram negociar a rendição. O relatório da HRW resgata o clima de terror: “À medida que a operação avançava por cerca de 15 horas, moradores receberam mensagens e ligações desesperadas de jovens, alguns deles provavelmente armados, na mata da Vacaria. Eles diziam que estavam encurralados, que queriam se render, não queriam morrer. Em seguida, seus telefones ficaram em silêncio”. Não houve registros de prisões nesse setor. Quase todos saíram mortos.

Marcas de execução

A análise de 122 laudos cadavéricos demonstra que 62% dos mortos foram baleados pelo menos quatro vezes, e mais de 40% sofreram tiros na cabeça. Um homem de 37 anos recebeu 11 tiros nas costas, sete deles na altura do coração. Outro, levado ainda com vida a um hospital por policiais, possuía dez perfurações, sendo seis à queima-roupa.

A letalidade direcionada é reforçada no documento da ONG: “De acordo com peritos do Grupo Independente de Especialistas Forenses do Conselho Internacional de Reabilitação para Vítimas de Tortura (Independent Forensic Expert Group of the International Rehabilitation Council for Torture Victims), consultados pela Human Rights Watch, as evidências — incluindo o número de vezes que cada vítima foi baleada e o elevado número de tiros na cabeça — sugerem que muitas foram atingidas e mortas intencionalmente”.

Tortura gravada em áudio

Apesar de as câmeras não terem registrado as mortes, áudios captaram episódios de tortura e intimidação. A Defensoria Pública identificou a ação do Batalhão de Choque contra um homem rendido no chão, com o pé de um PM sobre a cabeça. Um sargento ordena o deslocamento do detido para um beco: “Vamos matar essa p*rra!”. Com um pano ensanguentado no rosto do homem, um agente pressiona: “Se falar onde tá o fuzil, o sofrimento acaba!”. Em outro trecho, sugerem jogá-lo do alto de uma laje: “Ele vai virar avião, vai voar!”.

A violência se estendeu a trabalhadores. Mototaxistas foram agredidos e sufocados com roupas, enquanto um idoso que filmava a ação foi coagido: “Tu para de sacanagem com a polícia, hein? (…) Te acho onde eu quiser! Apaga essa p*rra! Vai embora!”.

Mulheres também foram alvo de armas de choque e gás pimenta. Uma trabalhadora da saúde foi torturada sob ofensas: “Olha pra frente, hein! Olha pra frente, sua filha da pta! Informante de vagabundo! (…) Ela falou que tava dando informação pros caras. Arrebentar ela, deixar ela moída! [Incompreensível] essa prra dessa câmera aqui. Dá vontade de arrebentar ela, quebrar a perna dela, essa filha da p*ta! (…) Vadia, vagabunda aí, ó! (…) Falar mais baixo aqui… vadia, vagabunda… mas dá um caldo”.

Cenário de impunidade

Até o momento, o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) denunciou 27 policiais apenas por crimes patrimoniais e abuso, como desvio de fuzis, furtos e invasão de domicílio. Ninguém responde pelas execuções.

A Polícia Federal concluiu a análise das imagens da Polícia Civil (Core), mas os vídeos da Polícia Militar foram devolvidos ao Estado devido ao volume impraticável, seriam necessários três anos para a perícia das 4,5 mil horas de gravação sem um filtro prévio. Laudos e fotografias já foram remetidos à Procuradoria-Geral da República (PGR) por ordem do Supremo Tribunal Federal (STF).

No campo político, os comandantes da operação lucraram eleitoralmente. O então secretário de Polícia Civil, Felipe Curi (PP), elegeu-se deputado federal com o número de urna 1122, em alusão direta à quantidade de mortos. O comandante da PM à época, Marcelo de Menezes (PL), conquistou uma vaga de deputado estadual.

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