A teia de escândalos em torno do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, que há meses sacode o cenário político no Brasil, agora também inclui denúncias de envolvimento em rede de exploração sexual, que incluía mulheres em situação de refúgio. Nas horas e dias seguintes às denúncias, uma série de coletivos, associações e instituições de migrantes ou envolvidas com a temática migratória exige apuração e ações por parte do poder público e do Judiciário nacional.
O caso veio à tona em reportagem do UOL publicada na última terça-feira (13), intitulada “Vorcaro era sócio oculto de agência de prostituição e recrutou refugiadas”. O texto descreve um esquema de recrutamento e exploração sexual envolvendo mulheres de outros países – as conversas mencionam russas, venezuelanas, argentinas, polonesas e ucranianas, sobretudo as que se encontravam em situação vulnerável em razão da guerra que assola o país desde o começo de 2022.
Vorcaro atuava não apenas como recrutador e usuário dos serviços, mas também selecionava mulheres, dando ordens e investindo no negócio. Também costumava se referir às vítimas como “escravas” e “kengas”.
Ainda de acordo com a reportagem do UOL, o ex-banqueiro teria investido ao menos R$ 4,3 milhões no esquema, que também incluía Leonardo Serrano, proprietário de uma empresa de eventos, e Diogo Batista, promotor de eventos em São Paulo. Os três são investigados em inquérito aberto pela Polícia Federal.
Em nota, Vorcaro “nega que tenha, em algum momento, explorado ou desrespeitado mulheres”. Ele está preso desde março deste ano, em meio a uma operação da Polícia Federal que apura um esquema bilionário de fraudes financeiras. Além disso, também tem vindo à tona uma extensa rede de influência e coerção construída pelo ex-banqueiro que envolve políticos, empresários e até meios de comunicação.
Mobilização social e ações na Justiça
Em reação às denúncias de envolvimento de Vorcaro com tráfico humano e exploração sexual de mulheres, uma série de coletivos, associações e instituições de migrantes ou envolvidas com a temática migratória se manifestou e cobrou providências.
Nesta quinta-feira (14), um grupo de 57 entidades e pessoas físicas (entre pesquisadores, ativistas e agentes públicos) apresentou ao Ministério Público Federal um pedido conjunto de apuração sobre o caso. No documento, as entidades expressam “veemente repúdio a toda prática que transforme mulheres em instrumentos de vantagens econômicas ou relações de poder, especialmente quando sua necessidade de proteção, moradia, subsistência ou regularização migratória seja explorada para colocá-las em situação de submissão ou exploração sexual. Repudiam, igualmente, qualquer forma de linguagem que evidencie a naturalização da exploração sexual de crianças e adolescentes”.
Uma das signatárias da carta, a ativista Swany Zenobini, salientou ao MigraMundo a importância de dar visibilidade às denúncias, cobrar apuração rigorosa e garantir que possíveis violações de direitos não sejam silenciadas.
“Acredito que a nossa indignação precisa se transformar em ação! A adesão de tantos movimentos e pessoas que atuam no enfrentamento ao tráfico humano, nas migrações e na defesa dos direitos das mulheres mostra a força e a importância dessa mobilização”.
Horas após a veiculação da reportagem pelo UOL, o Centro de Direitos Humanos e Cidadania do Imigrante (CDHIC) divulgou uma nota na qual reforçou que “a condição de vulnerabilidade decorrente do deslocamento forçado jamais pode ser instrumentalizada para a obtenção de vantagens ou exploração”. Também ressaltou que “mulheres migrantes e refugiadas têm direito à proteção, ao acolhimento e à reconstrução de suas vidas com dignidade e segurança”.
Além dessas entidades, a Equipe de Base Warmis – Convergência de Culturas, coletivo formado por mulheres migrantes e brasileiras filhas de migrantes, divulgou por meio das redes sociais uma carta de repúdio na qual exige “investigação rigorosa, proteção das mulheres envolvidas e responsabilização de todas as pessoas implicadas”. A manifestação ainda expressa preocupação com as ligações já documentadas pelos meios de comunicação entre Vorcaro e o senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que recorreu ao banqueiro em busca de financiamento para o filme sobre o próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

(Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil – 30.jul.2018)
Meio político
A deputada federal Sâmia Bomfim (PSOL-SP) afirmou pelas redes sociais que acionou o STF (Supremo Tribunal Federal) para pedir investigação urgente do esquema de Daniel Vorcaro de tráfico internacional de mulheres para exploração sexual.
“Pedi cooperação com autoridades estrangeiras para identificar as mulheres recrutadas, com proteção da intimidade delas, e apurar como foram recrutadas, pagas e levadas de um país a outro. Tudo aponta para aliciamento de ucranianas, russas, venezuelanas, argentinas e polonesas”, escreveu a parlamentar pelas redes sociais.
Até mesmo personalidades ligadas à direita do espectro político cobraram providências das autoridades. Em discurso no plenário do Senado na terça-feira (13), a senadora Damares Alves (Republicanos-DF) também cobrou a apuração de suspeitas de tráfico de pessoas e exploração sexual de mulheres, incluindo refugiadas. E defendeu que a Casa não ignore a possibilidade de crimes contra pessoas que foram obrigadas a se deslocar em razão de conflitos armados.
“As matérias indicam, presidente, que Vorcaro financiou rede de prostituição e recrutou refugiadas ucranianas para satisfazer o desejo de alguns corruptos que participavam daquelas terríveis festinhas”, disse a parlamentar.
Com informações de UOL e Congresso em Foco
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