InícioBrasilO Nobel para Navi Pillay não transforma acusações em verdade

O Nobel para Navi Pillay não transforma acusações em verdade

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Uma acusação não se torna mais verdadeira porque quem a sustenta recebeu um prêmio. Pode, porém, passar a ser tratada como se fosse fato. O Nobel da Paz concedido a Navi Pillay torna esse mecanismo visível. A jurista presidiu a comissão da ONU cujo relatório concluiu que Israel cometeu genocídio em Gaza. Em 2020, antes de assumir essa função, assinou um manifesto em defesa de sanções contra Israel.

O presidente do comitê, Jørgen Watne Frydnes, incluiu a investigação sobre Gaza no reconhecimento ao trabalho de Pillay. À AFP, porém, ressaltou que cabe à Corte Internacional de Justiça (CIJ) decidir se houve genocídio, não ao comitê.

Depois do anúncio do Nobel, Emma Reilly, ex-funcionária do escritório de direitos humanos da ONU, retomou sua denúncia: na gestão de Pillay, o órgão se tornou suspeito de ter repassado à China nomes de mais de 50 dissidentes, ignorando seus alertas sobre os riscos. Segundo Reilly, familiares testemunharam em tribunal sobre intimidação, prisões arbitrárias, tortura, desaparecimentos e mortes. Ela acusou Pillay de ser “cúmplice do genocídio dos uigures”. Hillel Neuer, diretor da UN Watch, cobrou:

— O comitê do Nobel deve uma explicação aos dissidentes cujos nomes foram entregues à China.

Ele lembrou ainda que Pillay não compareceu à cerimônia de entrega do Nobel da Paz a Liu Xiaobo, dissidente chinês que estava preso, em 2010. Elisha Wiesel, filho de Elie Wiesel, Nobel da Paz de 1986, afirmou no jornal The Free Press que premiar Pillay trai o legado de seu pai.

O comitê precisa explicar como examinou as denúncias anteriores à escolha e responder aos questionamentos agora apresentados. Reconhecer uma trajetória não dispensa o exame de episódios que põem em questão os valores que o próprio prêmio afirma defender.

Pillay disse ter recebido elogios por sua coragem ao concluir que houve genocídio em Gaza.

— Por que seria preciso coragem para dizer a verdade? — perguntou.

O Nobel deu à jurista uma tribuna global para apresentar as conclusões da comissão como verdade. A imprensa destacou a acusação em suas manchetes ou na abertura das notícias. O Telegraph chegou a apresentar Pillay como a juíza que decidiu que Israel cometeu genocídio, usando “judge who ruled”. A expressão pode sugerir decisão judicial, embora o relatório não constitua sentença contra Israel. Sua conclusão exige exame dos fatos apurados e dos critérios jurídicos aplicáveis. Nem a trajetória de Pillay nem o Nobel a tornam incontestável.

A ação da África do Sul contra Israel tramita na CIJ, sem decisão final de mérito. As medidas provisórias não constituem sentença que declarou genocídio. O Tribunal Penal Internacional julga indivíduos: os mandados contra Benjamin Netanyahu e Yoav Gallant tratam de acusações de crimes de guerra e contra a humanidade, não de genocídio. Não equivalem a condenações.

Genocídio exige intenção específica de destruir, no todo ou em parte, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso. Ela pode ser inferida de atos e declarações, apenas depois de descartada qualquer outra explicação. Mortes de civis e destruição, por mais devastadoras, não bastam, por si sós, para demonstrá-la.

O Pulitzer de Saher Alghorra pelas fotos de Gaza, o Oscar de “No Other Land” e o Prêmio Especial do Júri de Veneza a “Naza” ampliam a circulação das obras, mas não comprovam cada afirmação que as acompanha. Os responsáveis pelas premiações devem examinar controvérsias, explicar critérios e responder sobre erros e omissões. Dizer que o prêmio não endossa uma acusação não encerra essa responsabilidade. À imprensa cabe preservar a diferença entre reconhecimento e comprovação.

Prêmios podem reconhecer trajetórias, fotografias ou filmes. Podem ampliar seu alcance e conferir prestígio. Mas não substituem a prova.

*Nira Broner Worcman, jornalista, é CEO da Art Presse Comunicação e autora da edição hors commerce de “Enxugando Gelo” (2025), sobre a cobertura midiática de Israel e do povo judeu

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