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Nobel da Paz premia Navi Pillay, jurista que aponta genocídio

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O comitê norueguês do Nobel anunciou nesta sexta-feira (9) que Navanethem “Navi” Pillay, 85, venceu o Nobel da Paz de 2026 por “seus esforços para promover a paz e o direito internacional”. Jurista sul-africana, de origem indiana, ela foi juíza do Tribunal Penal Internacional (TPI) e Alta Comissária das Nações Unidas para Direitos Humanos.

No ano passado, uma comissão da ONU liderada por Pillay, que investigou a guerra na Faixa de Gaza, concluiu que Israel havia cometido genocídio contra os palestinos. Tel Aviv condenou o relatório.

“Pillay responsabilizou Estados e líderes nacionais por suas ações, levou esperança às vítimas de violência e conflitos e demonstrou uma sólida bússola moral ao longo de sua extensa carreira”, afirmou o comitê ao anunciar o prêmio.

Questionado pela agência de notícias AFP, o comitê afirma não se posicionar sobre a classificação da campanha militar israelense em Gaza como genocídio. Tel Aviv criticou a escolha, afirmando que a entrega do prêmio a Pillay legitima o “ódio anti-Israel”. Já organizações internacionais celebraram o anúncio, afirmando que a decisão representa uma vitória da justiça internacional.

O empresário Elisha Wiesel, filho de Elie Wiesel —que venceu o Nobel da Paz em 1986—, publicou um texto no site The Free Press em que condena a premiação de Pillay. “Meu pai recebeu o prêmio por garantir que o Holocausto não fosse esquecido. Ao homenagear Navi Pillay, que acusou Israel de genocídio, o comitê traiu o legado dele”, afirmou. Segundo ele, escolher a jurista “não é um deslize isolado do Comitê Nobel”, mas “faz parte de uma tendência de longa data”.

Pillay dedicou seu prêmio aos “sobreviventes de crimes internacionais” e pediu aos líderes mundiais que respeitem as instituições jurídicas internacionais. Ela participava de uma conferência anual de direitos humanos em Nuremberg, na Alemanha, e por isso não atendeu o telefone quando o comitê telefonou para avisá-la da premiação.

Quando a notícia chegou à conferência, a sala com dezenas de colegas em que Pillay estava irrompeu em aplausos. A jurista fez piada sobre o apoio que recebeu dos colegas. “Se vocês aplaudirem mais, pode ser que eu divida esse prêmio com [Donald] Trump”.

No ano passado, a vencedora do Nobel da Paz foi a líder opositora venezuelana María Corina Machado, que posteriormente entregou sua medalha a Trump. O episódio deixou o comitê norueguês numa posição delicada, depois de a campanha aberta de Trump pelo prêmio a si próprio —ainda que a venezuelana tenha dado a medalha ao americano, a honra continua sendo dela, uma vez que o prêmio não pode ser transferido, compartilhado ou revogado.

O anúncio do Nobel deste ano parece trazer, inclusive, um recado indireto ao presidente, ainda que sem citá-lo nominalmente. O TPI, onde Pillay atuou por oito anos, é há muito tempo alvo de pressão do presidente americano. A campanha contra o tribunal, que inclui sanções a juízes, tornou-se mais intensa depois que a corte emitiu, no ano passado, mandados de prisão contra o primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu .

“O sistema de direito internacional está sob enorme pressão, e suas instituições estão sendo atacadas”, afirmou o comitê do Nobel nesta sexta. “Estamos vendo uma mudança em direção à política de poder, em detrimento dos marcos jurídicos e do respeito global pelo direito e pela justiça.”

“Em um momento de desafios existenciais —incluindo mais guerras e conflitos do que o mundo vê há muito tempo—, o direito internacional deixou de ser apenas um complemento à paz e à segurança. É uma necessidade absoluta”, acrescenta o comitê.

Horas após o anúncio, Trump fez outra investida e anunciou novas sanções contra o tribunal. A vice-promotora do TPI, Nazhat Shameem Khan, condenou a ação dos EUA e afirmou que ela não interromperá o trabalho do tribunal.

A comissão especial da ONU liderada por Pillay investigou a fundo tanto o ataque terrorista do 7 de Outubro, que serviu de estopim para a guerra, quanto a retaliação israelense na Faixa de Gaza e também na Cisjordânia ocupada. A investigação deu origem a um relatório que acusa Israel e o Hamas de crimes de guerra.

O documento também conclui que Israel cometeu genocídio em Gaza com o objetivo de “destruir os palestinos” que vivem no território e culpa autoridades israelenses de alto escalão, incluindo Netanyahu, por incitar tais atos. Israel, que se recusou a cooperar com a investigação, rejeitou o documento, chamando de falsas as acusações.

“Hoje testemunhamos em tempo real como a promessa do ‘nunca mais’ é quebrada e testada diante dos olhos do mundo. O genocídio em curso em Gaza é um ultraje moral e uma emergência legal”, disse Pillay a jornalistas logo após a divulgação do relatório.

A sul-africana nasceu em 23 de setembro de 1941. Em 1967, abriu seu próprio escritório de advocacia e, durante o apartheid, defendeu ativistas de várias organizações, incluindo membros do Movimento da Consciência Negra e o próprio marido, preso sob a Lei de Terrorismo.

O comitê do Nobel ressaltou que Pillay atuou “em alguns dos principais processos judiciais internacionais de nosso tempo”. Após o fim do apartheid, foi juíza do TPI para Ruanda (1995–2003), presidindo-o nos últimos quatro anos. Participou do julgamento de Jean-Paul Akayesu, ex-prefeito ruandês condenado por genocídio e crimes contra a humanidade, em um processo que estabeleceu que estupro e violência sexual podem constituir atos de genocídio.

Na África do Sul, ajudou a incluir a cláusula de igualdade na Constituição, que proíbe discriminação por raça, gênero, religião e orientação sexual, e cofundou a Equality Now, organização internacional de direitos das mulheres.

Ex-alta-comissária da ONU para os Direitos Humanos, Pillay presidiu até recentemente a Comissão Internacional Independente de Inquérito sobre o Território Palestino Ocupado. Hoje, é juíza da Corte Internacional de Justiça no processo em que Mianmar é acusado de genocídio contra a minoria rohingya, alvo de uma campanha de perseguição e violência que levou centenas de milhares de pessoas a fugir do país em 2017.

Ao todo, 287 candidatos haviam sido indicados à láurea neste ano, dentre os quais 208 eram indivíduos, e 79, organizações. O número é menor do que o do ano passado, quando houve 338 indicações, e do que o de 2016, quando houve um recorde de 376 nomes.

Mais curiosidades sobre a lista de indicados, no entanto, só poderão ser sanadas daqui a 50 anos. Os candidatos e aqueles que os indicaram —que envolvem, entre outros, líderes de países e quem eventualmente já foi laureado— ficam em sigilo por cinco décadas.

O ganhador do Nobel da Paz recebe 12 milhões de coroas suecas (cerca de R$ 6 milhões), entregue em Oslo no dia 10 de dezembro.

O Nobel foi concedido pela primeira vez em 1901. Inicialmente, eram cinco categorias: paz, literatura, química, física e medicina. Uma sexta —economia— foi adicionada décadas mais tarde, em 1969.

Até a metade do século 20, os laureados na principal categoria eram “políticos ativos que procuravam promover a paz internacional, a estabilidade e a justiça por meio da diplomacia e de acordos internacionais”.

Desde o fim da Segunda Guerra, porém, o prêmio passou a reconhecer esforços nas áreas de desarmamento, democracia e direitos humanos. Na virada para o século 21, o foco foi ampliado para incluir iniciativas que tentem conter a crise climática causada pelo homem.

Relembre os dez vencedores anteriores do Nobel da paz

  • 2025: A líder opositora venezuelana María Corina Machado por sua atuação pela democracia na Venezuela
  • 2024: A organização Nihon Hidankyo, que atua pela abolição das armas nucleares e foi criada por sobreviventes das bombas atômicas de Hiroshima e Nagasaki, os chamados hibakushas.
  • 2023: A ativista dos direitos humanos iraniana Narges Mohammadi, 51, por apoiar a luta das mulheres pelo direito de elas terem vidas plenas e dignas.
  • 2022: O ativista da Belarus Ales Bialiatski, o Memorial, grupo de direitos humanos da Rússia, e o Centro para Liberdades Civis da Ucrânia, por demonstrarem a importância da sociedade civil para a paz e a democracia.
  • 2021: Os jornalistas Maria Ressa (filipina) e Dmitri Muratov (russo), pela defesa que fazem da liberdade de expressão, pré-requisito para a democracia e a paz duradoura.
  • 2020: Programa Mundial de Alimentos (PMA), por atuar como uma força motriz nos esforços para prevenir o uso da fome como arma de guerra e conflito.
  • 2019: O primeiro-ministro da Etiópia, Abiy Ahmed, que assinou acordo de paz que pôs fim a duas décadas de hostilidades com a Eritreia.
  • 2018: O congolês Denis Mukwege e a iraquiana Nadia Murad, que denunciaram a violência em relação a vítimas de violência sexual como arma de guerra.
  • 2017: Campanha Internacional para Abolir Armas Nucleares (Ican), por chamar a atenção para o risco de armas nucleares.
  • 2016: Juan Manuel Santos, ex-presidente da Colômbia que negociou o acordo de paz com as Farc
  • 2015: Quarteto para o Diálogo Nacional da Tunísia, pela contribuição decisiva na construção de uma sociedade plural no país.

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