“A única coisa boa do Maranhão é o presídio de Pedrinhas.” A declaração de Jair Bolsonaro, feita em fevereiro de 2014, ocorreu quando o complexo penitenciário enfrentava uma das mais graves crises de direitos humanos do país, marcada por assassinatos, torturas e condições desumanas de encarceramento.
A frase de Bolsonaro foi lembrada na terça-feira (6), durante o programa Dedo de Prosa, da Agência Tambor, com a participação dos jornalistas Danielle Louise e Emílio Azevedo.
(Veja, ao final desta matéria, o debate na íntegra entre os jornalistas da Tambor.)
O jornalista Emílio Azevedo afirma que a frase expõe a relação do grupo Bolsonaro com o Maranhão e revela o que seus integrantes desejam para o estado. Ele lembra que “a Penitenciária de Pedrinhas é um lugar de dor, de sofrimento, de exclusão”.
Emílio destaca que foi exatamente isso — dor, sofrimento e exclusão — que os Bolsonaro entregaram ao Maranhão durante os quatro anos em que estiveram à frente do governo federal. Segundo ele, Bolsonaro promoveu uma série de cortes nos investimentos destinados ao combate à fome e nas áreas da saúde, da educação e da cultura no estado.
Além disso, Emílio recorda que, durante seu mandato como presidente, Bolsonaro estimulou e promoveu uma onda de violência contra as populações das periferias urbanas e das áreas rurais. “As armas de Bolsonaro estão apontadas para os maranhenses”, afirma o jornalista.
Pedrinhas como símbolo da exclusão
A declaração de Jair Bolsonaro foi feita em 11 de fevereiro de 2014, na Câmara dos Deputados, em Brasília. Na ocasião, seu nome era cogitado para assumir a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Casa, o que provocou protestos de movimentos sociais. Ao comentar a situação do sistema prisional, Bolsonaro elogiou Pedrinhas e defendeu o endurecimento das punições contra criminosos.
A fala ocorreu após uma sucessão de episódios de violência no complexo penitenciário. Somente em 2013, foram registradas 59 mortes de detentos. A gravidade da crise havia provocado a atuação de organismos nacionais e internacionais de direitos humanos, diante de denúncias de torturas, assassinatos e outras violações.
Durante o Dedo de Prosa, Emílio Azevedo recuperou o episódio para questionar o significado político da declaração. “A penitenciária de Pedrinhas é um lugar de dor, é um lugar de sofrimento, é um lugar de penitência”, afirmou em entrevista ao programa Dedo de Prosa.
Para o jornalista, a frase ultrapassa uma opinião sobre o sistema prisional. Ela expressa uma visão de sociedade na qual a repressão ocupa o lugar das políticas de inclusão. Emílio relacionou essa concepção às posições do bolsonarismo sobre educação, saúde, segurança pública e direitos sociais, destacando os riscos para um estado onde grande parte da população depende dos serviços públicos.
Educação pública e ameaça de novos cortes
A jornalista Danielle Louise, formada pela Universidade Federal do Maranhão (UFMA), onde ingressou por meio das cotas raciais, destacou a importância das políticas de inclusão no ensino superior. Com trajetória na comunicação popular e atuação no jornalismo sindical, Danielle também é cofundadora da iniciativa MAI – Mulheres Aprendendo Inglês. Durante o debate, ela relatou sua experiência como estudante beneficiada pelas cotas e ressaltou as oportunidades abertas pela educação pública para jovens negros e de famílias de baixa renda.
“Eu sou fruto de políticas públicas”, afirmou Danielle, ao recordar as mudanças que ampliaram o acesso ao ensino superior. Segundo a jornalista, essas iniciativas transformaram a realidade de famílias que, anteriormente, encontravam grandes obstáculos para ingressar nas universidades.
A preocupação apresentada por Danielle também está relacionada ao histórico de restrições orçamentárias durante o governo Jair Bolsonaro, entre 2019 e 2022. Naquele período, universidades federais enfrentaram bloqueios de recursos e mobilizações estudantis contra a redução de verbas. No Maranhão, a jornalista destacou as dificuldades enfrentadas pela UFMA, incluindo problemas relacionados à assistência estudantil, moradia e manutenção dos serviços universitários.
O debate ganha relevância diante das propostas econômicas discutidas pela equipe de Flávio Bolsonaro. Em setembro, a CNN Brasil informou que integrantes da campanha avaliavam um ajuste fiscal de aproximadamente R$ 300 bilhões. Já em outubro, reportagem da Folha de S.Paulo apontou discussões sobre mudanças nos pisos constitucionais da saúde e da educação, além de regras previdenciárias, como parte de um ajuste estimado em até R$ 250 bilhões. A campanha contestou essas informações e afirmou que pretende preservar os programas sociais.
Para Danielle, a possibilidade de novas restrições representa um risco especialmente grave para estudantes que dependem de bolsas, restaurantes universitários, moradias estudantis e outros mecanismos de permanência. O impacto não se limitaria às instituições de ensino, mas alcançaria famílias e comunidades que dependem da educação pública como instrumento de transformação social.
Direitos sociais e condições de trabalho
A discussão também abordou as condições de vida da população trabalhadora. Danielle chamou atenção para a jornada de seis dias de trabalho por um de descanso, conhecida como escala 6×1, e para a necessidade de colocar a redução do tempo de trabalho entre os assuntos centrais do debate eleitoral.
A jornalista argumentou que o desgaste físico e mental de trabalhadores submetidos a jornadas prolongadas precisa receber mais atenção do que as disputas em torno de pautas morais que dominam parte da campanha. Na avaliação dela, o debate sobre direitos trabalhistas permite abordar problemas concretos enfrentados diariamente por milhões de brasileiros.
Emílio ampliou a reflexão para outras áreas, como saúde, moradia e segurança pública. Para o jornalista, o enfraquecimento de políticas sociais teria consequências particularmente graves no Maranhão, onde o acesso a serviços públicos é fundamental para grande parte da população.
O Maranhão no segundo turno
No Maranhão, o resultado do primeiro turno mostrou uma ampla vantagem de Lula (PT), que recebeu 63,98% dos votos válidos, contra 30,90% de Flávio Bolsonaro (PL). A diferença evidencia a força eleitoral do presidente no estado, mas também revela que mais de 1,2 milhão de maranhenses votaram no candidato do PL. Os números ajudam a dimensionar a disputa política e a importância do debate público sobre os projetos apresentados pelas duas candidaturas.
Outro ponto discutido no Dedo de Prosa foi a dificuldade de tratar de políticas públicas em uma campanha marcada por ataques políticos, desinformação e disputas ideológicas. Danielle avaliou que a concentração das discussões em pautas morais reduz o espaço para questões como renda, emprego, educação e direitos sociais.
Os jornalistas também abordaram a abstenção eleitoral e a importância da participação política no segundo turno. Emílio destacou o peso do eleitorado maranhense na disputa presidencial e a necessidade de ampliar o debate sobre as consequências das escolhas políticas para o estado.
Na conclusão do programa, Emílio retomou a declaração sobre Pedrinhas como síntese de sua crítica ao projeto político bolsonarista. Para ele, a população maranhense precisa considerar o que está em disputa para além da segurança pública, incluindo as condições necessárias para garantir educação, trabalho, saúde e dignidade.
[Veja o debate na íntegra entre os jornalistas da Tambor.]
