Um copo simples com duas alças, feito de plástico azul e que já estava com a superfície leitosa de quem passou doze anos sendo lavado todos os dias. Em novembro de 2016, começou a se desfazer. Na casa dos Carter, em Devon, na Inglaterra, aquilo não era um problema de colocar apenas um louça fora, mas virou uma questão de saúde.
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Ben Carter tinha 14 anos, autismo severo e uma deficiência intelectual grave, era não falante e bebia exclusivamente usando aquele copo desde os 2 anos. Ele recusava qualquer outro recipiente, e isso resultou até em mais de uma ida ao hospital por desidratação. Quando o último exemplar ficou impróprio para uso, o pai, Marc Carter, desesperado, publicou um pedido de ajuda nas redes.
Duas alças, uma exigência
“Ben é severamente autista e tem uma deficiência intelectual severa. Ele é não verbal, não comunicativo, e não entende que pode usar outro copo”, disse Marc à CBC.
A rigidez não era capricho. Padrões restritos e repetitivos de comportamento, incluindo insistência na invariabilidade e adesão inflexível a rotinas, são critério diagnóstico do transtorno do espectro autista tanto no DSM-5-TR, manual da Associação Americana de Psiquiatria, quanto na CID-11, da Organização Mundial da Saúde. Trocar o copo não era negociável do lado de fora porque, do lado de dentro, não havia negociação disponível.
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Pessoas do mundo todo ofereceram copos azuis parecidos. Mas, a menos que fosse 99,9% idêntico, Ben não bebia.
Cinquenta tuítes por minuto
O apelo do pai passou de 19,5 mil retuítes, e ele contou à CBC que em determinado momento recebia cerca de 50 tuítes por minuto. Antes de qualquer solução industrial, ele já havia conseguido 5 copos, com outros 35 a caminho. Não bastava. Ben poderia depender do modelo por décadas.
O primeiro contato com a Tommee Tippee, empresa que fabricava o copo, terminou com a resposta de que não havia nada a fazer.
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O molde estava guardado
A empresa mobilizou equipes nos Estados Unidos, na Austrália, na França e em Hong Kong para procurar o copo. “A equipe da nossa fábrica descobriu que as ferramentas para fazer os copos originais ainda estavam guardadas e, crucialmente, em condição de uso”, informou a companhia em comunicado no próprio site.
Segundo Michelle Lo, do Mayborn Group, foi preciso cerca de uma semana só para recuperar as ferramentas e checar seu estado. O copo tinha sido produzido entre 2001 e 2003, com fabricação encerrada em dezembro de 2003.
Verde, não azul
A empresa fez um anúncio inicial, em 30 de novembro de 2016, falando que iria produzir 500 novas unidades do copo. Uma semana depois, a CNN apurou que quatro máquinas e cerca de doze trabalhadores de uma fábrica chinesa seriam dedicados por uma semana a produzir aproximadamente mil copos, na cor Pearlized Green. Nenhuma amostra na cor original havia sido localizada.
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O copo que resolveu o problema, portanto, não era o copo azul da campanha. Era o mesmo molde em outra cor, e por sorte, foi aceito por Ben.
Dois mil objetos depois
Marc Carter passou a ajudar outras famílias de crianças autistas a localizar itens fora de linha aos quais elas se apegaram. O site que ele mantém já ajudou a encontrar quase 2 mil objetos.
O plástico leitoso de duas alças que estava se desfazendo em uma cozinha de Devon virou estoque, virou método e virou serviço para gente que nunca ouviu falar de Ben. O que a fábrica reativou não foi só um molde.
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